Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 26 de agosto de 2018
Recentemente, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) convocou um amigo militar para uma missão: ajudá-lo a desfazer a associação de sua imagem à discriminação contra os afrodescendentes, após numerosas declarações controversas sobre questões raciais nos últimos anos.
O subtenente do Exército Hélio Fernando Barbosa Lopes, 49 anos, é candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, pelo mesmo partido. Negro, ele lançou sua candidatura com o apelido “Hélio Bolsonaro”. Em 2016, quando tentou se eleger vereador em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, concorreu como “Hélio Negão”.
Trata-se de um acordo do qual ambos tentam se aproveitar: Hélio quer pegar impulso na popularidade do líder das pesquisas de intenção de voto para o Palácio do Planalto sem a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e Bolsonaro pode estufar o peito para dizer que é amigo de uma pessoa negra e supostamente não poderia ser acusado de ser racista.
Julgamento
A estratégia coincide com a aproximação de julgamento que pode transformar Bolsonaro em réu sob acusação de racismo contra quilombolas e outros grupos sociais. Nesta terça-feira, a Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) deve decidir se aceita a denúncia contra o candidato a presidente.
Bolsonaro foi denunciado em abril pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, por causa de uma palestra no Clube Hebraica do Rio realizada no ano passado. Ela considerou que houve ataques a quilombolas na palestra de Bolsonaro, que disse “Eu fui em um quilombola em Eldorado Paulista e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”. Para Dodge, o político se referiu a essas pessoas como se fossem animais ao utilizar a palavra “arroba”.
Hélio tem aparecido muito com Bolsonaro em fotos e vídeos publicados em redes sociais, nos quais fica claro o discurso buscado. “Bolsonaro não é racista e eu sou a prova disso”, diz ele em um vídeo recente. “Vamos acabar com essas divisões de classes, de preto contra branco, de rico contra pobre, de homo contra hétero”, afirma em outra gravação.
O candidato a deputado também publica fotos nas quais aparece abraçado com o presidenciável e insere legendas irônicas, como “Bolsonaro racista” ou “Bolsonaro com a elite branca opressora”.
“É uma estratégia antiga de reduzir o racismo a uma relação interpessoal. O sujeito demonstra que tem algum tipo de relação afetiva com uma pessoa negra, mas ao mesmo tempo se dirige a todos os negros de maneira depreciativa e é contra todas as pautas da população negra”, diz Silvio Luiz de Almeida, advogado, professor e presidente do Instituto Luiz Gama.
Para Adilson José Moreira, psicólogo e doutor em direito na Universidade Harvard (Estados Unidos), as piadas são uma forma “socialmente aceita” de expressar ideias racistas: “A pessoa conta a piada racista, mas depois se protege ao dizer que é só humor. É estratégico para preservar a imagem positiva da pessoa branca”.
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