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Brasil Escolhido para o lugar de Lula na disputa presidencial, Fernando Haddad pensou em deixar o PT por sentir-se abandonado após a derrota na eleição para prefeito de São Paulo em 2016

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Derrota em 2016 reduziu espaço do ex-prefeito de SP, que virou plano B após recusa de Jaques Wagner. (Foto: Sérgio Silva/PT)

Assim que encaixou o boné vermelho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na cabeça, Fernando Haddad, 55, mudou de ideia e tirou o adereço. Logo depois, como se estivesse constrangido por recusar o presente de um militante, voltou a vesti-lo. Em menos de um segundo, incomodado com o figurino, descartou a peça mais uma vez.

O candidato escolhido para disputar a Presidência pelo PT no momento mais crítico de sua história encarna os principais conflitos enfrentados pela sigla. Naquele domingo em Juazeiro (BA), há duas semanas, Haddad surfava na onda do lulismo e disparava nas pesquisas. Agora, às vésperas do primeiro turno, é obrigado a voltar ao Nordeste para conter um maremoto antipetista.

“Precisei fazer em vinte e poucos dias o que outros fizeram em seis meses”, disse à Folha no intervalo de uma gravação. A rejeição crescente ao PT dificultou o plano de Haddad de se apresentar como uma alternativa amena ao que ele mesmo classificava como a “barbárie”, representada por Jair Bolsonaro.

A adesão em massa de empresários e políticos ao candidato do PSL assustou o comando de sua campanha no início da semana. “Jogaram a toalha muito cedo e decidiram servir de escada para o Bolsonaro”, lamentou o petista em uma conversa com aliados.

Para chegar com fôlego à votação deste domingo (7), o PT decidiu dobrar a aposta em redutos tradicionais, como o Nordeste. Se confirmar a vaga no segundo turno, o figurino moderado será a principal aposta de Haddad.

O professor universitário de classe média não era a primeira opção para substituir Lula após a prisão do líder petista. Seu destino só foi selado nos acréscimos.

Forçado pela legislação eleitoral a definir seu candidato a vice-presidente, o comando do PT fez uma visita-relâmpago a Lula em sua cela em Curitiba dois dias antes da convenção da sigla, marcada para 5 de agosto. O ex-presidente sugeriu, então, que fosse feita uma última consulta a Jaques Wagner.

O ex-governador baiano, seu amigo, era considerado um político com mais traquejo eleitoral que Haddad, com capacidade de acelerar a transfusão de votos de Lula especialmente no Nordeste.

Ao deixarem a carceragem da Polícia Federal, dois dirigentes do partido telefonaram para Jaques, no caminho até o aeroporto. Pelo viva-voz, a dupla ouviu do ex-governador a negativa final, com uma frase repetida por meses em conversas reservadas: “Não vou substituir Lula”.

Naquela data limite, Haddad se tornou oficialmente o plano B dos petistas. Em uma articulação engenhosa, ele foi indicado como vice do ex-presidente preso. A vaga de vice do vice foi oferecida a Manuela D’Ávila, fechando o apoio do PCdoB à chapa.

Depois que se tornou o virtual presidenciável do PT, Haddad foi alvo de três denúncias do Ministério Público com base em uma delação de Ricardo Pessoa, da UTC. O empresário diz que repassou R$ 2,6 milhões em caixa dois para pagar dívidas de campanha em troca de benefícios na prefeitura de São Paulo. O petista rechaça a acusação, diz que não há provas e argumenta que contrariou os interesses da UTC no município.

A missão não caiu simplesmente no colo de Haddad. O ex-prefeito (2013-2016) trabalhou para recompor suas pontes com o PT, apagar algumas decepções, mergulhar nas estruturas orgânicas do partido e reforçar sua relação com Lula.

Haddad confidenciou a alguns auxiliares que se sentiu abandonado depois que sua candidatura à reeleição foi derrotada em primeiro turno, há dois anos.

Além de ter enfrentado a crise do reajuste das tarifas de ônibus, faísca dos protestos de junho de 2013, Haddad teve sua gestão marcada por críticas feitas pelos próprios petistas. Era acusado de dar muita atenção ao centro e se ausentar da periferia.

Ao perder a eleição, ele e sua equipe mais próxima ficaram sem espaço na máquina partidária, com uma dívida milionária de campanha para quitar.

Depois que deixou a prefeitura, Haddad se dedicou a dar palestras e aulas na universidade. Rodava de carona com um assessor, num Fox branco amassado dos dois lados. Auxiliares batiam à porta de artistas e empresários pedindo doações para zerar as contas. Por alguns meses, ao longo de 2017, ele cogitou deixar o PT.

O próprio Lula fez os gestos que facilitaram a reaproximação de Haddad com a legenda. No fim do ano, chamou o afilhado para acompanhá-lo em suas caravanas pelo País, deu a ele a coordenação do programa de governo de sua candidatura e, numa conversa reservada, disse que, se eleito, gostaria que ele fosse seu ministro da Fazenda.

Se Lula não pudesse disputar, Haddad defendia, naquela época, que o PT formasse uma frente com partidos de esquerda, abrindo mão até de lançar um candidato próprio.

 

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