Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 1 de agosto de 2019
Depois de passar quase duas semanas dizendo que os dados de desmatamento da Amazônia são mentirosos, o governo Jair Bolsonaro reconheceu, na quarta-feira (31), que a taxa está em alta, mas afirmou que os números que vieram à tona nos últimos dias foram uma interpretação equivocada. O presidente anunciou no sábado que haveria uma “surpresa” nos números e na quarta chegou a dizer que apresentaria o “dado real”. Mas o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, encerrou o dia sem trazer os tais dados e dizendo apenas que os “porcentuais interpretativos cairão”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
O período em que a taxa anual do desmatamento é medida se encerrou na quarta (de 1º de agosto de um ano a 31 de julho do ano seguinte), e dados de alertas disponíveis no site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a perda da vegetação este ano pode ter sido bem maior que no ano anterior. O agregado de alertas feitos pelo Deter – o sistema de detecção em tempo real – aponta alta de 40% ante o mesmo período do ano anterior. Os satélites observaram uma perda até esta quarta-feira de 5.879 km² da floresta, ante 4.197 km² entre 2017 e 2018, considerando somente o desmatamento com solo exposto.
Os valores começaram a subir mais do que nos últimos anos a partir de maio. Julho, segundo o Deter, trouxe a maior perda em um mês desde 2015. Até esta quarta, o desmatamento observado foi de 1864,2 km² – um valor 212% mais alto que julho de 2017. É mais do que a área da cidade de São Paulo, que tem cerca de 1.500 km². Considerando essa medida, o agregado do ano é de 6.443 km², contra 4.572 km² no ano anterior.
Os números acendem um sinal vermelho. O Deter fornece dados diariamente ao Ibama e às secretarias estaduais de Meio Ambiente para orientá-las na fiscalização. O sistema observa situações como desmatamento com solo exposto, desmatamento com vegetação, limpeza para mineração, degradação. Considerando os três primeiros pontos, que realmente indicam a perda da floresta, o chamado corte raso, chega-se a esses números de julho.
Mais rápido, porém com resolução menor, o Deter funciona como indicador do que um outro sistema, o Prodes, deve mostrar até o fim do ano. Este sim é o monitoramento que fornece a taxa anual oficial da perda da vegetação na Amazônia. Nas últimas semanas, a gestão Bolsonaro, repercutindo análises de junho, começou a criticar o Inpe e chegou a dizer que os dados são mentirosos, que o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, estaria “a serviço de alguma ONG” e que a divulgação dos números prejudica o País.
Na quarta-feira, o presidente falou duas vezes sobre o assunto. No fim da manhã, disse que à tarde seria divulgado o “dado real” do desmate. “Foi uma variação muito abrupta. Alguma coisa aconteceu. E a desconfiança nossa é por aí, que existem dados lá que são alertas de desmatamento. Alerta não é desmatamento”, disse.
Algumas horas depois, afirmou que não seria divulgado nada e que, após o Inpe dizer que há “suspeita” de desmatamento, alguém do Ibama deveria “ir lá e comprovar”. O presidente ainda disse que os números não podem ser jogados. “Vão ser compilados agora. Vai ser discutido com todo mundo para passar exatos para todo mundo.”
Um pouco depois, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se manifestou. Ele havia acabado de sair de uma reunião com o ministro da Ciência, Marcos Pontes, técnicos do Inpe e um diretor do Ibama, onde ouviu explicações de como os sistemas de monitoramento funciona.
“O desmatamento vem aumentando desde 2012. Tem aumento de desmatamento, precisamos ver agora como coibir”, admitiu Salles. Mas disse que a elevação de 88% observada nos alertas em junho tinha sido interpretação de “jornalistas, técnicos e ditos especialistas” para produzir “impacto midiático”. Também alegou que há, entre os dados, alertas duplicados ou desmates de mais de um ano que só foram vistos agora. Segundo ele, a elevação de 88% foi “reconhecida por todos (na reunião) que não reflete a realidade”.
“Hoje verificamos na reunião que foi feita entre o Inpe e o Ibama de que há áreas que estão sendo creditadas como agora e que não são de agora, são do ano passado. Portanto se você puder deduzir essas áreas, certamente esses porcentuais interpretativos cairão”, afirmou Salles.
Ao Estado, o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, afirmou que todos os dados apresentados por Salles foram contra-argumentados pelos técnicos. Ele reconheceu que às vezes um alerta pode não se confirmar depois como um real desmatamento, mas que, em geral, os sinais demonstrados pelo Deter são confirmados depois pelo Prodes. Se um aponta alta, o outro provavelmente confirmará a mesma alta depois.
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