Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de fevereiro de 2020
A escalada na cotação do dólar, que encerrou a semana cotado a R$ 4,32, vai levar a General Motors a um reajuste no preço de seus automóveis nos próximos dias. A afirmação é do argentino Carlos Zarlenga, presidente da GM na América do Sul. O executivo afirma que, hoje, 40% das peças de um carro de passeio básico veem do exterior.
E com o dólar estabelecido acima dos R$ 4, o aumento projetado para 2020 vai ficar acima do registrado nos anos anteriores. Levantamentos da Bright Consulting, especialista no setor, apontam que os automóveis estão ficando mais caros, pelo menos, 1,5% acima da inflação todos os anos. “Neste ano, o reajuste será maior”, diz Zarlenga, que não descarta queda em volume de vendas decorrente disso. “Não tem o que fazer”, afirma.
A escalada do dólar preocupa os negócios da GM no Brasil?
Muito. Se você acompanhar a desvalorização do real nos últimos anos vai ver que é algo importante para nós. Nossa indústria tem muito custo em dólar e isso gera uma queda importantíssima nos resultados das empresas. Então, o que eu acho que vai acontecer é uma tração de preços maior neste ano do que a gente já viu no ano passado. É basicamente o único caminho.
Vocês, então, vão repassar a desvalorização do real para o preço dos produtos?
A posição do real não está para se fortalecer significativamente neste ano, ainda mais com a queda na taxa de juros. E no horizonte da economia global, não está tão claro o fortalecimento do real. Eu acho que isso vai ter um impacto, sim, nos preços.
As montadoras já vem aumentando, ano a ano, os preços dos automóveis. Em média, os carros registram alta real, acima da inflação, de até 2,5%.
O principal aumento nos custos nos últimos anos não é relacionado a inflação. O principal aumento no preço dos produtos é a desvalorização do real. Eu diria que, se você analisar o preço dos carros em dólar, eles têm caído. E também a gente tem de levar em conta os impostos. Quanto de imposto tem ai?
De quanto deve ser, então, o reajuste para este ano?
Vai depender do real. Os economistas falam que o patamar adequado para a cotação do dólar frente o real gira em torno de R$ 4,20. (Nesse caso, o aumento) estará acima do patamar do ano passado. É difícil falar quanto a indústria aumentou no ano passado, mas aumentou mais do que a inflação.
Qual é o impacto hoje do dólar em um veículo popular da GM, como o Chevrolet Ônix.
O nível de produção local do Ônix é de 60%. Então, estamos importando 40%. E a gente faz um trabalho bastante bom de regionalização. O problema é que temos a dificuldade, pelo custo Brasil, de exportar fora do Mercosul, o que seria uma forma de fazer um hedge em dólar. Mas fora do mercado argentino não temos muito a oportunidade de exportar. Não são problemas de nossas fábricas. Os problemas estão na carga de impostos, que é altíssima, e da a logística, que é rodoviária. Enfim, todas as ineficiências que a gente conhece de longa data.
Você já disse que o índice de importação é muito puxado pelo aumento dos acessórios eletrônicos dentro dos carros. Esse tipo de acessório não poderia ser fornecido por produtores locais?
Quando eu digo que temos 60% de conteúdo regional e 40% importado nós estamos falando dos valores dentro da cadeia de suprimento que pagamos em dólar. Não estamos falando aqui de tudo que o fornecedor que chamamos de pier 1, que fornece diretamente para a montadora, produz. Mas falando de tudo que é produzido dentro da cadeia dele. Uma roda tem produção nacional. Mas dentro da roda, quais são os componentes importados? Qualquer parte do carro tem componentes. É nessa visão que 40% do custo de fabricação do carro é em dólar. E essa é a realidade que temos de trabalhar.
O caminho seria exportar, mas, de novo, ai fica difícil pela carga de impostos do Brasil e pelas dificuldades na logística. Nossa fábrica de Gravataí (RS) já é a fábrica mais eficiente do mundo, não só para a GM, mas é a mais eficiente do mundo para a fabricação de carros médios. Daí, da porta para fora você agrega impostos e ineficiência logística, fica impossível exportar.
Outra questão relacionada à importação de insumos é o surto de coronavírus. Isso pode afetar a produção da GM na América do Sul?
Nosso time está trabalhando nesse problema todos os dias, com reuniões pelas manhãs e pela parte da tarde para ver como está nosso fornecimento. Ainda não fomos atingidos, mas claramente estamos consumindo estoques de emergência. Tem o ponto que, no final, um carro possui 3,5 mil partes. Se falta uma, você não consegue fazer o carro. É uma cadeia de suprimento muito complexa.
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