Segunda-feira, 05 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 1 de março de 2020
Em algum momento, o mais provável é que o novo coronavírus se instale no Brasil. “Não será o fim do mundo”, diz Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, pesquisador na linha de frente de combate ao patógeno. O cientista não compartilha da esperança que a Organização Mundial da Saúde (OMS) manifesta de que será possível frear a doença, e contesta que a epidemia esteja bem mapeada na China. Para ele, faz sentido imaginar que existe um contingente grande de casos que não foram registrados no país que é o epicentro da epidemia. Isso indica capacidade maior de transmissibilidade do vírus, mas sinaliza que sua letalidade é menor. Em entrevista ao jornal O Globo, Venâncio conta o que espera ver uma vez que o coronavírus se estabeleça no Brasil.
A entrevista foi concedida antes da confirmação do segundo caso importado de coronavírus no Brasil. Leia abaixo alguns trechos:
– 1) A julgar pelo número de casos suspeitos de coronavírus no Brasil, é possível dizer que a situação de vigilância está sob controle? “O processo de vigilância que o Brasil estruturou tem dado resultados bons, até porque estamos vindo de algumas experiências que produziram amadurecimento importante nas três instâncias do SUS (Sistema Único de Saúde). Isso começou desde a Sars, epidemia para a qual nos preparamos em 2002 e que não chegou ao Brasil, passando pela prova de fogo que foi a chegada da H1N1, uma pandemia que se desenhou em curto espaço de tempo, até as posteriores, como a emergência do vírus zika. O sistema de vigilância foi acionado agora em tempo hábil, e num momento que nos é favorável pela sua característica: um vírus respiratório que surgiu no Hemisfério Norte, durante o verão do Hemisfério Sul. Esses vírus respiratórios se replicam em intensidade infinitamente maior no frio.”
– 2) Existe um risco de o vírus se adaptar ao clima tropical ou chegar mais tarde, quando o inverno estiver começando? “Sim. Muitas das verdades que estamos afirmando hoje para o mundo poderão não ser verdades amanhã. Estamos aprendendo no processo. A nossa expectativa é que ocorra um padrão muito parecido com aquele já conhecido por nós pelos demais vírus respiratórios, em especial o influenza e os outros coronavírus. É um processo de transmissão pessoa a pessoa razoável, que acomete uma grande quantidade de gente, mas a gravidade do quadro clínico é num número infinitamente pequeno de casos. Estamos de certa forma influenciados por uma aparente gravidade do quadro clínico desse número de mortes. A taxa de letalidade está sendo feita tendo por base uma quantidade de casos muito restrita, que são aqueles com confirmação e, desses, a ampla maioria é de confirmações laboratoriais. Existe uma quantidade muito maior de pessoas que foram infectadas e não foram submetidas a essa avaliação laboratorial, ou nem sequer foram a unidades de saúde. Quantas vezes tiveram gripe, e quantas vezes procurou um médico? São só os casos mais graves que procuram o atendimento direto. A gente imagina que essa letalidade não é 2% a 3%, como está sendo relatada. É infinitamente menor. O comportamento da doença, em princípio, está segundo aquilo que observamos durante as outras epidemias de infecções respiratórias.”
– 3) A OMS e a China contestam que o número de casos não notificados seja muito maior. Como o senhor vê essa incerteza? “Existe margem para incerteza, sim. Mas, veja bem: ocorreu um período de quase um mês de quarentena numa região da China com transporte fechado, escolas fechadas, comemoração do Ano Novo restrita, numa população de 40 a 50 milhões de pessoas. Dá para imaginar quantos infectados desenvolveram quadro limitado e não foram à unidade de saúde nem saíram à rua, porque era essa a recomendação. Ninguém tem esses dados notificados.”
– 4) Que mensagem a Fiocruz está transmitindo agora para a população? “A possibilidade de o vírus que chegou ao Brasil conseguir se instalar não é o fim do mundo. A maior probabilidade é a chegada do vírus e sua transmissão numa escala como em epidemias de gripe. Não podemos criar uma falsa expectativa de que é possível ficar num só caso. A probabilidade maior é que mais casos venham a ser confirmados, mas não será o fim do mundo.”
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