Sexta-feira, 02 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 21 de março de 2020
Está em curso uma corrida armamentista global por uma vacina contra o coronavírus. Nos três meses que se passaram desde que o vírus começou a se espalhar, China, Europa e Estados Unidos saíram em disparada para se tornarem os primeiros a produzir a vacina.
Mas, ainda que exista cooperação em muitos níveis – até mesmo entre empresas que normalmente são ferozes concorrentes –, paira sobre o esforço a sombra de uma abordagem nacionalista que poderia dar ao vencedor a chance de beneficiar sua própria população e ganhar vantagem para lidar com as consequências econômicas e geoestratégicas da crise.
O que começou como uma questão de quem receberia os elogios científicos, as patentes e, finalmente, as receitas por uma vacina bem-sucedida de repente se tornou uma questão mais ampla e urgente de segurança nacional.
E por trás da disputa há uma dura realidade: qualquer nova vacina que se mostre eficaz contra o coronavírus – já estão sendo realizados ensaios clínicos nos Estados Unidos, China e Europa – certamente será escassa, pois os governos farão tudo para garantir que sua própria população seja a primeira da fila.
Na China, mil cientistas estão trabalhando na vacina, e o problema já foi militarizado: pesquisadores afiliados à Academia de Ciências Médicas Militares desenvolveram o que é considerado a vacina com maior chance de sucesso e estão recrutando voluntários para ensaios clínicos.
A China “não ficará para trás dos outros países”, disse Wang Junzhi, especialista em controle de qualidade de produtos biológicos da Academia Chinesa de Ciências, na terça-feira (17), em uma entrevista coletiva em Pequim.
O esforço ganhou feições de propaganda. Já foi denunciada como fake uma fotografia vastamente compartilhada de Chen Wei, virologista do Exército de Libertação Popular, recebendo uma injeção do que seria a primeira vacina, em uma viagem que ela fez a Wuhan, onde surgiu o vírus.
O presidente Donald Trump vem conversando em reuniões com executivos do setor farmacêutico sobre maneiras de garantir a produção de uma vacina em solo americano, para garantir que os Estados Unidos controlem sua distribuição. Autoridades do governo alemão disseram acreditar que o presidente americano tentou atrair uma empresa alemã, a CureVac, para fazer a pesquisa e produção de uma possível vacina nos Estados Unidos.
A empresa negou ter recebido uma oferta de aquisição, mas seu principal investidor deixou claro que houve algum tipo de abordagem.
Questionado pela revista alemã Sport 1 sobre como se deu o contato, Dietmar Hopp, cuja Dievini Hopp BioTech Holding detém 80% da empresa, disse: “Não conversei pessoalmente com o presidente Trump. Ele falou com a empresa, e imediatamente eles me contaram e perguntaram o que eu pensava, e desde o primeiro momento conclui que era algo fora de cogitação”.
O relato da abordagem foi suficiente para levar a Comissão Europeia a encaminhar mais US$ 85 milhões à empresa, que já contava com o apoio de um consórcio europeu de vacinas.
No mesmo dia, uma empresa chinesa ofereceu US$ 133,3 milhões por uma participação acionária em outra empresa alemã na corrida da vacina, a BioNTech.
“Houve um despertar global para a noção de que a biotecnologia é uma indústria estratégica para nossas sociedades”, disse Friedrich von Bohlen, diretor da holding que detém 82% da CureVac.
E, assim como as nações fizeram questão de construir seus próprios drones, seus próprios aviões stealth e suas próprias armas cibernéticas, elas não querem depender de uma potência estrangeira para ter acesso aos medicamentos necessários na hora da crise.
Depois de duas décadas terceirizando a produção de medicamentos para a China e a Índia, “queremos todo o processo de produção perto de casa”, disse von Bohlen.
Alguns especialistas veem a concorrência geopolítica como algo saudável, desde que todos os sucessos sejam compartilhados com o mundo – o que as autoridades governamentais sempre dizem que vão fazer.
Mas elas não dizem como, ou mais importante, quando. E muitos analistas lembram o que aconteceu durante a epidemia de gripe suína em 2009: exigiu-se que a empresa australiana que foi uma das primeiras a desenvolver uma vacina de dose única atendesse à demanda da Austrália antes de receber os pedidos de exportação para os Estados Unidos e outros países.
Isso provocou indignação, teorias da conspiração e audiências no Congresso sobre as razões da falta de vacinas.
“Queremos que todos cooperem, que todos corram o mais rápido possível rumo à vacina e que os melhores candidatos avancem”, disse o Dr. Amesh Adalja, do Centro de Segurança em Saúde da Universidade Johns Hopkins.
Os comentários estão desativados.