Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 21 de março de 2020
O procurador-geral da República, Augusto Aras, pretende destinar recursos de multas pagas por meio de acordos de delação premiada para o Ministério da Saúde. O objetivo é que o dinheiro seja prioritariamente gasto com o enfrentamento ao novo coronavírus.
Segundo pessoas ouvidas pela Folha que participam de tratativas da PGR (Procuradoria-Geral da República) com colaboradores, a previsão de carimbar esses valores deve valer para a repactuação do acordo de executivos da JBS, em fase final de discussão, e para outras negociações em curso, cujo desfecho está próximo. Uma das delações em estágio mais avançado é a do empresário Eike Batista.
No caso da JBS, Aras propôs o pagamento de R$ 2 bilhões por conta dos crimes cometidos pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, além do ex-diretor de Relações Institucionais do grupo empresarial, Ricardo Saud. Inicialmente, esse valor era de R$ 25 milhões.
A ideia é que, do total, R$ 500 milhões sejam pagos à vista e componham um fundo da saúde para ser prioritariamente gasto em ações contra a pandemia.
O restante, segundo os termos propostos, terá de ser dividido em dez parcelas mensais de R$ 150 milhões. Essa fatia dos recursos também seria prioritariamente carreada à saúde —podendo, no entanto, ser investida em outras áreas, caso não haja mais necessidade no futuro.
A assinatura da repactuação estava prevista para esta sexta (20), mas emperrou porque a defesa dos irmãos Batista questionou a cifra de R$ 2 bilhões, apresentando uma contraproposta de R$ 200 milhões.
Segundo pessoas com acesso às discussões, a expectativa, no entanto, é de que os dois lados cheguem a um denominador comum até junho, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) decide se homologa a rescisão do acordo original dos executivos da JBS.
A repactuação proposta por Aras prevê a substituição da imunidade penal inicialmente concedida por penas de três anos e meio para Joesley e Saud.
Os dois teriam de ficar um ano e meio em regime fechado, descontados os cerca de sete meses já passados na prisão. Depois disso, passariam a cumprir cerca de um ano no semiaberto e mais cerca de um ano no aberto. No caso de Wesley, a previsão é a de que fique 11 meses no regime fechado.
Uma vez concluída, a nova versão do acordo será enviada ao Supremo, passando a valer a partir da eventual homologação pelo relator dos processos relativos à colaboração da JBS, ministro Edson Fachin.
A gestão de recursos pagos nas delações será do Ministério da Saúde. Caberá ao TCU (Tribunal de Contas da União) fiscalizar sua aplicação.
A repactuação não eximiria a J&F, holding que controla a JBS, de pagar os R$ 10,3 bilhões acertados em 2017 num acordo de leniência com o MPF (Ministério Público Federal) na primeira instância. Esse pagamento está sendo feito em parcelas.
Na contraproposta apresentada à PGR, a defesa dos delatores prometeu fazer esforços para firmar aditivos à leniência e, com isso, destinar, em 24 meses, R$ 1,8 bilhão do montante pactuado para o enfrentamento ao novo coronavírus.
Joesley e Wesley estão na lista de bilionários da revista Forbes, com fortunas individuais estimadas em US$ 1,3 bilhão em 2019. A delação dos executivos da JBS foi fechada em 2017 pelo então procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Meses depois, o próprio Janot a rescindiu, após virem à tona suspeitas de que os colaboradores omitiram crimes em seus depoimentos.
Na ocasião, a rescisão foi enviada ao Supremo para homologação, mas não foi tomada decisão a respeito e sobre o futuro das provas colhidas. Com os novos termos acertados, a PGR busca evitar que essas provas sejam invalidadas por causa do imbróglio no caso.
Há 23 ações penais e inquéritos decorrentes da delação da JBS, a maioria referente a ilícitos praticados por políticos. A PGR também receia que a rescisão gere um ambiente de insegurança jurídica, desestimulando criminosos de fechar acordos de delação no futuro.
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