Sábado, 10 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 6 de abril de 2020
A médica sanitarista Ligia Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, voltava de uma viagem de um mês no Japão quando as primeiras notícias do coronavírus começaram a atingir o Brasil. E, de certa forma, ela própria. Era comecinho de março. A UFRJ já havia decidido pôr em quarentena funcionários que estiveram no exterior. Somado a isso, com 64 anos, ela mais que pertencia ao grupo que precisava se trancar em casa. Professora e pesquisadora, mudou a rotina, passou a fazer videoconferência com alunos e colegas, para que os trabalhos principais não fossem descontinuados.
Um mês depois da quarentena, ela atesta: “Isolamento vertical é uma invenção política, sem fundamento científico. É política porque tenta identificar o ‘inimigo’ e o ‘aliado”’, se referindo à ‘modalidade’ defendida publicamente por Bolsonaro. “O coronavírus não escolhe vítimas levando em consideração a faixa etária ou social”, completa. Qual a grande lição que hoje, já podemos, tirar disso tudo? “Vamos continuar a defender o SUS, a ciência, a medicina e tenhamos consciência da fragilidade humana”, responde Ligia, em entrevista à coluna de Sonia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo. Veja principais pontos da entrevista.
– 1) Que riscos corremos se o Brasil quebrar o isolamento domiciliar agora? “Estamos no início do crescimento da epidemia no Brasil e justamente no momento de buscar reduzir ao máximo os contatos para retardar a velocidade de disseminação. Esse intervalo temporal é essencial para evitar sobrecarga aos hospitais, ganhar tempo para expandir a rede assistencial”, diz Ligia.
– 2) O que pensa sobre o isolamento vertical? A Inglaterra, por exemplo, tentou mas voltou atrás… “É uma invenção política, sem nenhum fundamento científico. É política porque tenta identificar o “inimigo” e o “aliado”. Mas o coronavírus não escolhe suas vítimas considerando condição etária ou social. O vírus infecta seres humanos, não escolhe raça, cor, idade, condição social, sexo. Os idosos são mais suscetíveis a desenvolver quadros graves causados pela Covid-19 mas os jovens também ficam doentes e alguns infelizmente muito doentes. Portanto, o isolamento, o distanciamento social, é para todos ou não tem sentido.”
– 3) Considerando a origem do coronavírus, ele é uma doença da classe média, ‘importada’ e de alta transmissibilidade. Mas ainda se desconhece com qual velocidade vai se espalhar em comunidades onde existe grande aglomeração. O que se sabe dessa transmissão? “Os casos no Brasil evidenciam transmissão comunitária e um padrão de disseminação rápido – similar a de países que demoraram para adotar estratégias de distanciamento social.”
– 4) Quais orientações a senhora dá para as pessoas das comunidades ou que moram com muitos familiares? “Lavar as mãos sempre, muitas vezes por dia. Tentar não sair de casa e se precisar higienizar roupas e sapatos – se possível deixar do lado de fora ou na entrada da casa. Se alguém da moradia apresentar sintomas, tentar usar máscara ainda que de pano, pode improvisar, e separar copos, talhares e pratos, toalhas e roupa de cama.”
– 5) Bolsonaro tem sido contra isolamento social. “Aí é a tragédia elevada ao quadrado. Nós brasileiros tivemos o azar de ter um presidente da República como ele justamente no momento dessa tragédia sanitária. Bolsonaro vem mantendo uma indiferença moral em sucessivos pronunciamentos e entrevistas. Chega a dizer que pessoas vão morrer mesmo. São atitudes desumanas, irresponsáveis. Note que há mais pessoas nas ruas depois que ele se pronuncia. Nos estarrece, mas ainda esperamos que ele mude de posição.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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