Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

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Mundo A boneca Barbie faz 60 anos e tenta superar a imagem de patricinha enquanto o mundo cobra diversidade

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Criticada por reforçar um padrão de beleza inatingível para a maioria das mulheres, boneca ganha novas versões, incluindo negras e curvilíneas. (Foto: Reprodução)

A Barbie chegou ao Brasil em 1982, franqueada pela marca Estrela, mas já era objeto de desejo das meninas americanas há mais de duas décadas: agora, ela completa 60 anos, e milhões de meninas de todo o planeta tiveram suas infâncias marcadas pela boneca loira, de olhos claros e corpo impossível de reproduzir na vida real.

Os números mostram que a sexagenária tem fôlego. A cada minuto, mais de 100 Barbies são vendidas em 150 países. O canal da boneca no YouTube tem 5 milhões de inscritos. Quem o acessa já consumiu 151 milhões de minutos de conteúdo, fora os impressionantes 18 bilhões de minutos de conteúdo gerados pelos próprios usuários.

Breve, num cinema

No ano que vem, o icônico personagem chega aos cinemas em sua primeira versão live action. Margot Robbie, atriz de “Esquadrão Suicida” e “Eu, Tônia”, vai encarnar a protagonista. Nem tudo, porém, é glamour. Para muita gente, a rica loura de cintura fina e que jamais envelhece tem o filme queimado para sempre. Barbie, afinal, cristalizou um ideal de beleza. E o mundo foi exigindo mais representatividade e brigando contra a imposição de padrões.

Justiça seja feita, ela foi uma revolução quando surgiu. Na época, as bonecas eram apenas reproduções de bebês. Com ela, as meninas de 60 anos atrás passaram a brincar de “adultas” – com profissões, carros, casas, um guarda-roupa repleto de looks – e, não mais, necessariamente, de mães.

Na história oficial, Ruth Handler, fundadora da fabricante de brinquedos Mattel junto com o marido, percebeu que a filha Barbara (ou Barbie) curtia trocar as roupas de suas bonecas de papel. Viu ali uma oportunidade de criar “life in plastic/it’s fantastic” (“vida de plástico, isso é fantástico”, em tradução livre), como cantou a banda Acqua, muitos anos depois.

Outra versão conta que a inspiração veio de Bild Lilli, boneca alemã criada em 1955 e que Ruth teria comprado em Hamburgo. O fato é que, no dia 9 de março de 1959, Barbie surgiu numa feira de brinquedos em Nova York, de saltos altos, maiô listrado e corpo de musa de Hollywood. A partir daí, o céu, ou melhor, o espaço foi o limite. A boneca, inicialmente vendida por US$ 3, teve mais de 200 carreiras – inclusive astronauta, em 1965, chegando à Lua antes de Neil Armstrong.

“De objeto inanimado, ela passou a ter uma dimensão humana e tornou-se um conceito, uma marca”, explica Fernanda Roveri, pesquisadora e autora do livro “Barbie na educação de meninas: do rosa ao choque”, que ganha nova edição neste ano.

Ao longo dos anos, a “boneca-mulher” foi vestida por estilistas famosos, viveu em mansões, ganhou capa de revistas e edições especiais retratando personalidades do cinema, da moda e das artes. Também contabilizou “amigas” de cabelos cacheados, negras, morenas e com filhos.

Mas o mundo mudou. E, com ele, mães e pais, que passaram a demandar bonecas mais condizentes com a realidade que viam em casa. A boneca se ligou e vem tentando se atualizar. Ao mesmo tempo, levou uma nova saraivada de críticas, de quem vê as tentativas de modernização como mera maquiagem da mesma doutrinação de como deve ser uma mulher.

No ano passado, Jill Lepore, historiadora americana e professora em Harvard, escreveu um artigo relembrando uma disputa judicial. A pendenga envolveu a Mattel, fabricante da Barbie, e a MGA Entertainment, criadora da Bratz, boneca mais descolada que caiu nas graças de meninas (e meninos) não brancas e ameaçou a hegemonia da loura nos anos 2000. Para ela, mesmo que as bonecas sejam aparentemente empoderadas, o controle sobre o tipo, corpo e padrão de mulher aceitável permanece.

De musa a meme

Professora no Art Center College Design em Pasadena, na Califórnia, Elizabeth Chin é especialista em comportamento do consumidor e também não acredita no poder de bonecas “empoderadoras”.

“O problema aqui não é realmente a Barbie, mas a cultura que a produz”, ela escreveu. As crianças seriam influenciadas desde muito cedo por uma cultura em que aparências importam – e muito. Para Elizabeth, dar às meninas bonecas com corpos mais reais mas manter a pressão social por magreza, padrão de beleza e adequação é inútil.

No Brasil dividido nas posições políticas, mas unido no amor aos memes, a boneca virou piada, discursando contra demandas de minorias em contraste com sua vida de luxo. Depois, apareceu como fantasia de carnaval, loura, de cor-de-rosa, carregando plaquinhas com frases como “Se eu tenho privilégios foi porque mereci!”

Apesar das críticas, a boneca chega aos 60 como sucesso de vendas. E aproveita a efeméride para lançar mais modelos. Entre as Barbies Fashionistas – lançadas em 2016 com bonecas negras, curvilíneas, de cabelos crespos, cacheados, coloridos – haverá agora uma cadeirante e outra com uma prótese na perna. Um novo posicionamento que veio há três anos com a sutil mudança de slogan: de “tudo o que você quer ser” para “você pode ser o que quiser”. Se o que você quiser couber no catálogo, claro.

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