Segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 8 de maio de 2018
O anúncio do ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa (PSB) de que não será candidato à Presidência da República em outubro tende a favorecer as candidaturas de Marina Silva (Rede) e Jair Bolsonaro (PSL), segundo cientistas políticos.
Para eles, Bolsonaro e Marina – líderes nas pesquisas eleitorais em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é considerado – atraem eleitores que poderiam ser seduzidos por Barbosa e buscam um candidato de fora do mundo político tradicional ou identificado com o discurso anticorrupção.O ex-ministro afirmou em sua conta no Twitter que a decisão de não concorrer era estritamente pessoal e ocorria após várias semanas de reflexão.
Barbosa alimentou especulações de que poderia se lançar à Presidência ao ingressar no PSB em abril, a um dia do prazo final para filiações de candidatos a cargos nas eleições de 2018.
No dia 15 daquele mês, ele obteve entre 8% e 10% das intenções de voto numa pesquisa do Datafolha. Nos cenários em que a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era desconsiderada, Barbosa ficou em terceiro lugar, em empate técnico com Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB) e atrás de Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede).
O bom desempenho do ex-ministro mesmo antes de confirmar uma candidatura levou muitos analistas a avaliar que Barbosa tinha grande potencial, podendo atrair eleitores de diferentes campos políticos.
Outsider e herói
Para a cientista política Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo, o ex-ministro simbolizava duas questões que terão peso na disputa deste ano: a luta anticorrupção e a rejeição a políticos tradicionais.
Esther diz que, ao conduzir no STF o processo do mensalão, que levou à prisão altos dirigentes do governo Lula, em 2012, Barbosa se tornou um ícone do combate à corrupção.
“Ele representou o que o (juiz federal Sérgio) Moro representa hoje: a ideia de um herói messiânico, expoente da moral, da ética e dos princípios.”
Para ela, Barbosa também pontuava bem nas consultas eleitorais por ser um outsider – uma figura alheia ao mundo político. “Os políticos profissionais hoje estão muito desvalorizados, porque são vistos como atrelados à corrupção.”
Com o anúncio de que o ex-ministro não se candidatará, a professora diz acreditar que Bolsonaro tende a se beneficiar. “Ele também se coloca como um outsider, embora ele não seja, e como o único candidato não envolvido com corrupção.”
Esther diz que Marina também pode, em menor grau, absorver potenciais eleitores de Barbosa, por ser vista por muitos como alheia aos partidos tradicionais e não envolvida com corrupção. Segundo ela, Marina também pode agradar eleitores que pendiam para Barbosa por vê-lo como alguém capaz de superar a polarização entre esquerda e direita.
Consolidação
Para Geraldo Tadeu Monteiro, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas sobre a Democracia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Barbosa desiste de concorrer num momento de intensa negociação entre os partidos.
Nos últimos dias, o MDB sinalizou que poderá apoiar a candidatura de Geraldo Alckmin, do PSDB; o ex-governador baiano Jaques Wagner, do PT, disse que seu partido poderia apoiar Ciro Gomes, do PDT, ao mesmo tempo em que outros dirigentes do PT reiteram a candidatura Lula; e o senador e pré-candidato Álvaro Dias (Podemos) defendeu uma aliança com o empresário Flávio Rocha (PRB), também pré-candidato.
Para Monteiro, a saída de Barbosa “joga o PSB nessas conversas”. Ele diz que há dois caminhos principais para o partido: reeditar a aliança com Marina Silva, que vigorou na eleição de 2014, ou integrar uma possível coalizão de esquerda em torno de Ciro Gomes – opção que ele considera mais provável.
Embaralhamento
Para Flávia Biroli, professora de Ciência Política da Universidade de Brasília, é difícil avaliar os impactos da desistência de Barbosa para os demais postulantes ao Planalto, pois a candidatura do ex-ministro jamais se consolidou e pouco se sabe sobre seus potenciais eleitores.
Ela diz que o anúncio de Barbosa afeta uma articulação que estava em curso no movimento negro. “Havia a possibilidade de que a presença de um homem negro na disputa pudesse atrair esse segmento, tradicionalmente posicionado na centro-esquerda.”
Para ela, a presença de Barbosa embaralhava a disputa, já que ele jamais detalhou suas posturas políticas. “É possível que, não existindo sua candidatura, tenhamos um cenário um pouco mais claro em termos de centro-direita e centro-esquerda.”
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