Sábado, 10 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 30 de dezembro de 2025
A Europa de 2026 será menos utópica do que o continente construído desde 1945 com a ajuda americana. Se no pós-Segunda Guerra, os Estados Unidos usaram o Plano Marshall e a Organização do Tratado do Atlântico Norte para financiar uma aliança transatlântica que permitiu aos países europeus reconstruir o continente — enquanto a população se beneficiava de um Estado de bem-estar social baseado em valores pacíficos e ambientais —, agora a ascensão do segundo governo Trump e sua aversão à ordem mundial do pós-guerra escancararam a urgência de os europeus realinharem seu projeto de futuro para se manterem relevantes. Em 2026, as aspirações europeias buscam uma Europa mais independente e, consequentemente, menos idealista.
A reinvenção da Europa sem o apoio incondicional dos EUA passa por um redesenho das prioridades econômicas, de defesa e segurança e de meio ambiente do continente. A busca por competitividade e relevância na geopolítica mundial impôs a necessidade de diminuir a dependência da indústria de armamentos americana.
Trump foi um choque que forçou a Europa a passar por um período de recuo, afirma a economista e diplomata francesa Laurence Tubiana, que avalia que os próximos dois anos serão cruciais para o continente acordar e construir uma independência econômica e estratégica. Ela lembra que atores europeus e americanos se aliaram para desfazer a regulamentação europeia na área do meio ambiente e conseguiram, com a ajuda da frequente aliança entre a centro-direita e a extrema direita no Parlamento Europeu.
As instituições europeias defendem que a Europa reforce sua competitividade no mundo, o que, segundo a especialista do Escritório Europeu para Meio Ambiente Emilie Tricarico, é uma resposta direta à mudança na economia global e às dificuldades nas relações de comércio entre os EUA e o bloco.
“A Europa segue o caminho de ‘precisamos nos rearmar’ e fazer isso aumentando os gastos com defesa em detrimento do bem-estar social e das medidas de proteção do meio ambiente”, afirma, explicando que o continente não alcançou a maior parte dos objetivos ambientais para 2030.
A Europa escolheu segurança e defesa, e o reposicionamento se reflete em um pacote de € 800 bilhões (R$ 5,2 trilhões) intitulado “Rearmar a Europa” (ou “Prontidão 2030”), direcionado para que países europeus aumentem gastos militares. Despesas com sistemas de artilharia, mísseis, defesa aérea, munições e drones serão excluídas das restrições orçamentárias do bloco — e os países individualmente anunciaram em 2025 orçamentos cada vez maiores em defesa. Para os próximos dois anos, a França vai aumentar os recursos da pasta em mais de € 6 bilhões (R$ 39 bilhões).
“A Defesa tem um impacto enorme no clima e no meio ambiente. O setor da defesa global é responsável por mais de 5% das emissões de carbono, e a indústria é isenta de reportar suas emissões”, explica Tricarico.
Além dos gastos com equipamentos, como o anúncio feito pelo presidente Emmanuel Macron de um novo porta-aviões francês, a partir de 2026 países vão adotar medidas para arregimentar mais pessoal para suas Forças Armadas, entre eles França, Alemanha e Polônia.
A invasão da Ucrânia reequilibrou o poder político e econômico em favor dos setores do petróleo e do gás, diminuindo a margem de manobra de atores que lutavam pela ação climática, tendência que se aprofundou com a inflação e com o debate sobre a segurança energética e deve crescer em 2026.
“Isso deu uma capacidade de negociação para esse setor (gás e petróleo) inacreditável, que eles estavam perdendo até o momento da invasão”, avalia Tubiana.
Buscando competitividade, o bloco vai afrouxar a lei que obriga empresas a enviarem relatórios de impactos ambientais — isenção que incluirá data centers e gigafábricas de inteligência artificial, setor que aparece como prioridade também na decisão do governo francês de sediar em 2025 a “Cúpula da ação para inteligência artificial”.
A medida de desregulamentação, propagandeada como simplificação do ambiente de negócios e incentivo à inovação, também pode prejudicar o meio ambiente. Tricarico afirma que o que está em jogo é o abandono de regras do Acordo Verde Europeu de 2020.
“Isso é favorecer o capital às custas das pessoas e do planeta.”
Em dezembro, a UE também anunciou que pretendia abandonar o objetivo de banir carros que emitem gases de efeito estufa até 2035.
“Estamos em um impasse. Ninguém tem uma estratégia clara. Os europeus estão, de forma simultânea, profundamente divididos sobre o que está acontecendo e qual poderia ser o remédio”, avalia Jan Rovny, professor da Sciences Po. “Um lado diz que devemos aumentar a competitividade, ter mais livre comércio, voltar para o jogo, ter startups de sucesso. O outro lado diz que o primeiro está completamente errado, a solução não está em mais liberalismo, e, sim, em se fechar, tomando a mesma rota de Trump de mais protecionismo, diminuir a imigração e dar apoio econômico e proteção cultural para as populações. Essa polarização está crescendo.” As informações são do jornal O Globo.