Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020

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Brasil A expectativa demorada de tramitação da reforma da Previdência derruba as previsões mais otimistas do mercado

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Previsões mais otimistas de que o governo conseguiria avançar de forma acelerada começam a dar lugar a uma visão mais cautelosa. (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Os primeiros passos do governo Jair Bolsonaro indicam que a batalha no Congresso Nacional para aprovar reformas econômicas, em especial a da Previdência, pode ser mais difícil do que o esperado. Aos poucos, analistas ouvidos pelo portal de notícias G1 começam a apontar que o governo deve levar mais tempo para tirar medidas importantes do papel.

Desde a disputa eleitoral do ano passado, a equipe econômica de Bolsonaro assumiu uma bandeira reformista e um discurso liberal, o que sempre foi bem visto pelo mercado. Nas últimas semanas, no entanto, ruídos na articulação do governo para aprovar a reforma da Previdência, considerada fundamental para o acerto das contas públicas, acenderam o sinal de alerta entre os investidores. No mercado, o reflexo ficou evidente: o dólar e a bolsa valores têm enfrentado bastante volatilidade.

“Eu vejo uma correção das expectativas e essa volatilidade tende a continuar no mercado”, afirma a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Um levantamento da XP realizado com agentes de mercado deixou claro esse aumento do ceticismo com a negociação política do governo. Em fevereiro, 39% dos entrevistados esperava a votação da Previdência no plenário da Câmara em junho, enquanto outros 40% dos entrevistados previam a votação entre agosto em dezembro.

Na pesquisa deste mês, apenas 10% esperavam a votação em junho e 61% acreditam que ele vai ocorrer entre agosto e dezembro.

Para aprovar a reforma, o governo precisa de 308 votos na Câmara dos Deputados. A proposta precisa passar por duas votações na Câmara e duas no Senado antes de ser sancionada pelo presidente e entrar em vigor.

Negociação difícil

A expectativa de uma tramitação mais complexa e demorada do que se imaginava fez com que a CNI (Confederação Nacional da Indústria) reduzisse fortemente suas estimativas para o crescimento do setor este ano: a taxa esperada passou de 3% em dezembro para 1,1% esta semana.

A dificuldade de articulação política, segundo os analistas, ficou evidente com o embate entre Bolsonaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), e depois da aprovação da PEC (proposta de emenda à Constituição) do orçamento, o que indicou uma desarticulação do governo no Congresso. A PEC aumenta os gastos obrigatórios ao tornar impositivas as emendas de bancada e vai na contramão do que defendia a equipe econômica – a proposta do Ministério da Economia é justamente descentralizar e desobrigar investimentos mínimos em várias áreas.

“O ambiente está mais complicado não só para os mais otimistas, mas até mesmo para os mais cautelosos”, afirma a economista e sócia da consultoria Tendências Alessandra Ribeiro. “Do ponto de vista político, o governo ainda não conseguiu se organizar.”

Nos últimos dias, num movimento para se aproximar do Legislativo, Bolsonaro passou a se encontrar pessoalmente com líderes partidários para tentar fazer avançar a reforma da Previdência. Na última sexta-feira (4), recebeu seis presidentes de partidos. Na quarta-feira (10), se encontrou com parlamentares de mais cinco partidos.

“Fiquei bem impressionado com a equipe econômica e a estrutura montada por Paulo Guedes no ministério”, diz o economista-chefe do banco Safra, Carlos Kawall. “Vejo o saldo até como positivo desses primeiros dias, mas agora há incertezas ligadas à questão política. Há uma pulverização e uma grande renovação (na Câmara). Há uma base do governo que é pró-mercado, o que não havia no passado, mas há muita gente nova e inexperiente.”

Diluição da reforma

Os analistas ainda têm como cenário principal a aprovação da reforma da Previdência, mas a expectativa de que o processo seja mais lento do que o esperado também abre espaço para uma diluição na economia prevista pelo projeto, de R$ 1,1 trilhão em 10 anos.

Na avaliação da consultoria de risco Eurasia, por ora, a probabilidade de aprovação da reforma da Previdência é de 70% e ela deve ocorrer até a segunda quinzena de julho na Câmara dos Deputados. A expectativa de economia é de R$ 600 bilhões.

“Nós já estávamos mais céticos do que a média, mas hoje estamos confortáveis com essa posição”, diz o analista da Eurasia Christopher Garmam. “Na nossa avaliação, a aprovação da reforma deve ocorrer até a segunda semana de julho, mas o calendário está ficando apertado.”

A reforma do governo tem sido monitorada, sobretudo, por investidores estrangeiros. O movimento de alta da bolsa no início do ano foi puxado pelos investidores locais. “Os investidores estrangeiros estão posicionados em Brasil, mas estão aguardando as reformas”, afirma Zeina.

 

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