Quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 30 de agosto de 2019
Em recente entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o argentino Carlos Zarlenga, presidente da GM (General Motors) na América do Sul, disse que a fábrica da montadora em Gravataí (Região Metropolitana de Porto Alegre) é a mais produtiva do mundo no segmento de carros compactos. Ele também criticou a carga tributária sobre a indústria automotiva. Veja, a seguir, os principais trechos.
O executivo relembra que o Brasil passou os últimos anos enviando para a Argentina a maior parte das exportações de veículos. Ficaram de fora os demais países do continente e que, embora pequenos, somam um mercado significativo, com 1,2 milhão de unidades por ano, cerca de metade do volume vendido no País. “Sorrateiramente, Coreia do Sul, China e México, dentre outros, abocanharam esses mercados”, lamentou.
Zarlenga ressaltou que não faz sentido o Brasil perder essas vendas. A crise no país vizinho acendeu uma espécie de “sinal vermelho”, ao expor o quanto a desvantagem competitiva leva o Brasil a perder mercados próximos até para concorrentes do outro lado do mundo. Não se trata, porém, de preferência por um produto diferenciado.
“Em uma empresa como a GM, os processos de produção garantem padrões iguais de qualidade e de custos em todas as fábricas do mundo”, ressaltou. “Em termos de manufatura, o Brasil leva até vantagens. A unidade de Gravataí é a mais produtiva do mundo em carros compactos. O problema está na estrutura tributária nacional, que faz com os carros exportados carregarem impostos locais mundo afora.”
Ele menciona o fato de o navio coreano que atravessa o Oceano Pacífico chegar ao Chile, por exemplo, com um produto mais barato que o brasileiro: “O mesmo ocorre no caso do México, que envia mais de 80% da produção de veículos ao mercado externo e tem Estados Unidos como principal destino”.
Revisão
Nos últimos meses, Zarlenga e outros executivos do segmento pedem uma revisão das regras do programa Reintegra, criado para os exportadores recuperarem créditos tributários acumulados no processo de produção. Até junho de 2018, a alíquota era de 2%, mas o governo reduziu para 0,1%. “Estudos comprovam que a alíquota pode subir para 5% sem prejuízo aos cofres públicos”, salienta o executivo. “O aumento da atividade na indústria elevaria a arrecadação.”
“O Brasil tem capacidade para produzir 4 milhões de veículos; poderia perfeitamente exportar um milhão”, afirma. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) revisou os cálculos de exportação recentemente. A nova projeção, feita antes da última desvalorização cambial na Argentina, indicou o embarque de 450 mil veículos em 2019, uma queda de 28,5% em relação a 2018.
Argentina
Graduado em Economia, o argentino Zarlenga demonstra preocupação com o agravamento da crise em seu país de origem. Ele prevê encolhimento do mercado em consequência dos últimos reajustes. A GM elevou os preços dos carros na Argentina em 23% na semana passada, após súbita desvalorização do peso.
A moeda argentina perdeu força com o resultado das primárias presidenciais, que funcionam como uma consulta prévia aos eleitores que escolherão o próximo presidente em outubro. Com vantagem de 15 pontos percentuais, o que leva os analistas a crer numa decisão em primeiro turno, Alberto Fernández, candidato da oposição, venceu Mauricio Macri, que tenta se reeleger.
Zarlenga foi o responsável pela área financeira da GM na América do Sul entre 2013 e 2016. No ano seguinte, a operação obteve equilíbrio financeiro. Mas, as desvalorizações cambiais e crises que abalaram Brasil e, em seguida, a Argentina, frustraram a expectativa de recuperar a rentabilidade desde então.
Há poucos meses, o executivo conseguiu conter parte das perdas que a companhia diz ter na região. Ele negociou com sindicatos a revisão de acordos trabalhistas, e com fornecedores e revendedores, novas condições de repasse de ajustes de preços e de margens.
Em 2017, Zarlenga assumiu a presidência da GM Mercosul e desde abril deste ano está no comando de toda a operação na América do Sul. Mas hoje suas maiores preocupações se voltam para a Argentina. O executivo tem viajado de São Paulo para Buenos Aires com frequência para entender melhor como a crise e a expectativa do processo eleitoral afetam a economia do país.
No Brasil, onde a GM é líder de mercado há 48 meses consecutivos, o resultado das vendas está aquém do previsto: “Esperávamos uma recuperação mais forte, mas o nível de confiança do consumidor na economia ainda está baixo para querer assumir a compra de bens como um carro”.
(Marcello Campos)
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