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Colunistas A Glamourização da Ignorância e os riscos da estupidez coletiva

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Vivemos um momento marcado pela crescente valorização social da ignorância. O jurista e ensaísta Rubens Casara, diz que atravessamos um processo de empobrecimento subjetivo no qual o pensamento reflexivo, indispensável à vida coletiva, passou a ser visto com suspeita. A complexidade incomoda, a dúvida é confundida com fraqueza e a disposição para rever convicções parece incompatível com um mundo organizado pela velocidade, pelo desempenho e pela necessidade permanente de afirmação. Pensar exige tempo, repertório e abertura ao contraditório; o ambiente contemporâneo, ao contrário, premia a resposta imediata, a frase de efeito e a certeza agressiva. Existe uma espécie de glamourização da burrice. Parecer um idiota passou a atrair crescente audiência nas redes sociais com a aura da “simplicidade verdadeira”, do palavrão como expressão de autenticidade e da estupidez como demonstração de coragem.

Os efeitos desse processo podem ser vistos e percebidos no desprezo pela educação, no sentimento anti-intelectual, nos debates rasos, no culto à punição, no ódio à diferença, no excesso de narcisismo e na perda da imaginação. A linguagem se empobrece, o pensamento se estreita e a convivência se torna mais hostil. Quando falta repertório para compreender a realidade, sobram rótulos para desqualificar quem pensa de forma diferente. A derrota do pensamento começa, muitas vezes, pela incapacidade de reconhecer a humanidade do outro.

Casara chama de idiossubjetivado o indivíduo afastado de tudo aquilo que é comum e coletivo, reduzido aos próprios desejos, ressentimentos e interesses. Esse sujeito imagina exercer plenamente sua liberdade, embora frequentemente apenas repita palavras de ordem, consuma identidades prontas e reaja aos estímulos produzidos pelas redes sociais. Sua autonomia é mais aparente do que real. Convencido de que pensa por conta própria, torna-se presa fácil de discursos que lhe oferecem culpados, certezas simples e autorização moral para diferentes formas de violência.

A ignorância é prima-irmã da estupidez, mas não deve com ela se confundir, conforme adverte o teólogo alemão, Dietrich Bonhoeffer. Pessoas cultas, instruídas e tecnicamente competentes também podem sucumbir à estupidez. Sua origem é sobretudo social e política. Em momentos de expansão autoritária do poder, muitos renunciam à autonomia, entregam sua consciência ao grupo e passam a falar por meio de slogans que se apoderaram deles. Continuam capazes de argumentar, mas já não examinam o sentido daquilo que dizem. Tornam-se instrumentos de vontades externas, perdendo gradualmente a capacidade de perceber o mal que ajudam a produzir.

Nesse ambiente, a polarização se intensifica e a rigidez elimina as nuances. Ciência, imprensa, universidades e instituições democráticas passam a ser atacadas porque representam mediações entre a realidade e a vontade do poder. O obscurantismo é arrogante: acredita possuir uma verdade exclusiva, destinada a reger a vida de todos. A cultura deixa de ser fruto do avanço lento, plural e conflituoso da sociedade e passa a ser disputada como instrumento de dominação. Livros, pesquisas e obras de arte tornam-se ameaças porque ampliam o horizonte da experiência humana e dificultam a submissão a uma narrativa única.

Como escapar desse catatonismo intelectual que transforma o não saber em orgulho e a ignorância em virtude? A educação continua sendo o caminho mais seguro, desde que compreendida para além da transmissão de conteúdos. Educar significa formar pessoas capazes de comparar versões, reconhecer evidências, conviver com a dúvida e resistir à sedução das respostas fáceis. Significa também recuperar a linguagem, a imaginação, a memória histórica e a responsabilidade diante do outro.

Uma sociedade pode acumular informações e, ainda assim, perder a capacidade de pensar. Resistir à cultura da ignorância exige mais do que combater falsidades isoladas; exige reconstruir as condições sociais que permitem ao indivíduo pensar com autonomia, dialogar sem submissão e assumir responsabilidade por seus atos.

(Instagram: @edsonbundchen)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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