Domingo, 19 de abril de 2026
Por Edson Bündchen | 16 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Os húngaros elegeram, no último final de semana, Péter Magyar como seu novo primeiro-ministro, encerrando um ciclo de 16 anos de Viktor Orbán, um dos principais nomes da extrema direita global. O resultado pode, mas não garante, uma inflexão no crescimento da agenda que a extrema direita vinha aplicando na Hungria, com reflexos em outras partes do mundo. Esse episódio sugere que possamos evocar, a título de reflexão, a resiliência de pressupostos totalitários de cunho fascista, apesar de tragédias ainda na memória e que devastaram a Europa em meados do século passado. Orbán ostentava parte importante dessa agenda autoritária. Sua derrota, contudo, não deve ser interpretada como eventual desaparecimento dos pendores totalitários, sempre latentes.
Não somente pelo fortalecimento de inclinações fascistas em várias partes do mundo, mas também como um processo de resistência que se impõe como agenda permanente de todos que devotam respeito a formas democráticas de governo, a releitura de autores e clássicos sobre o tema se fazem urgentes. Como sabemos, o fascismo, embora sob mil disfarces, tem ganhado força nas últimas décadas, com o surgimento de governos que seguem um fio condutor semelhante em práticas, escritas ou tacitamente exercidas, tão nocivas quanto reveladoras de sua gênese.
Se hoje não há mais dúvidas de que o fenômeno totalitário ameaça a soberania democrática de muitos países, não é de agora que alertas são emitidos quanto aos sinais de que devemos estar sempre alertas. Há quase 30 anos, mais exatamente em 1997, Umberto Eco, reconhecido como um dos mais importantes escritores de sua geração, tratava, como denúncia, os sinais de uma ameaça constante que já rondava a sociedade mundial naquela época, num prenúncio, gestado agora não mais sob uma Europa destroçada, mas sob os mesmos e tenebrosos pressupostos.
Eco dizia em seu breve ensaio que estamos aqui para recordar o que aconteceu e ainda para declarar solenemente que eles podem, mesmo que não devam, repetir o que fizeram. Mas quem são eles, pergunta o autor de “O Nome da Rosa”? Embora regimes políticos possam ser derrubados, e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um movimento e de sua ideologia, há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Existe então, outro fantasma que ronda a Europa, sem falar em outras partes do mundo, ou estamos diante do mesmo fenômeno se insinuando?
O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura, mas antes pela debilidade filosófica de sua ideologia. O fascismo italiano convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista. No caso, foi possível conceber um movimento que conseguiu reunir monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini e até os privilégios concedidos à igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado. O fascismo adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Há plasticidade em seu modelo.
Não existe, sob essa perspectiva camaleônica do fascismo, um único corpo de características que possam defini-lo com exatidão. Uma única característica pode ser tomada como um traço, demarcando um governo como de característica fascista. Assim, entre as formas possíveis do fascismo estão o medo do diferente, a oposição à análise crítica, o machismo, a repressão e o controle da sexualidade e a exaltação de um líder e um constante estado de ameaça, mas não apenas isso. Essas características podem não estar reunidas em um único sistema; muitas se contradizem entre si, são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo, mas suficientes para que apenas uma delas se apresente para fazer com que se tenha uma nebulosa fascista.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!