Domingo, 15 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 22 de agosto de 2020
Ex-presidentes, ex-ministros, governadores e parlamentares dos partidos que historicamente dividiram o poder no México foram expostos por Emilio Lozoya, ex-diretor da Pemex, no escândalo de propinas envolvendo a Odebrecht, o que causou um terremoto político sem precedentes no país. O atual presidente do México, Andrés Manuel Lopez Obrador, que tomou posse em 2018 com a promessa de acabar com a corrupção comentou a revelação feita pelo ex-diretor da companhia petrolífera estatal e a classificou como um “escândalo”.
Veio à tona o conteúdo da delação premiada apresentada à Procuradoria-Geral da República (FGR, na sigla em espanhol) por Lozoya — que foi extraditado pela Espanha em 17 de julho e é acusado de ter recebido US$ 10,5 milhões da Odebrecht em propinas. No depoimento, ele acusou membros do alto escalão de governos anteriores de participação em atos de corrupção.
Regime de corrupção
Lozoya detalhou a distribuição de propinas da Odebrecht para a campanha eleitoral do ex-presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018), do Partido Revolucionário Institucional (PRI), em troca da concessão de favores durante seu governo, assim como para a compra de votos de parlamentares do Partido de Ação Nacional (PAN), então da oposição.
Embora Lozoya tenha sido o responsável por distribuir as propinas, ele alega que agiu sob as ordens diretas de Peña Nieto e seu braço direito, o ex-secretário das Finanças Luis Videgaray, que construiu “um aparelho de poder organizado que – a partir dos mais altos níveis do regime – instrumentalizou o que era necessário para obter benefícios”. Mas Peña Nieto não ficou sozinho na delação. A denúncia também compromete os ex-presidentes Felipe Calderón, do PAN (2006-2012), por corrupção na compra da fábrica Etileno XXI pela Pemex, e Carlos Salinas de Gortari, do PRI (1988-1994), que intercedeu por contratos que beneficiassem seu filho.
“Esta é a primeira vez no México que ex-presidentes foram diretamente acusados de corrupção. Até agora houve um pacto de não-agressão”, disse o cientista político David Morales da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), à Agência Efe. A revelação vai muito além e também aponta Ricardo Anaya e José Antonio Meade, os candidatos do PAN e do PRI que concorreram com López Obrador, do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), nas eleições de 2018.
Lozoya também alega que, em 2013, vários parlamentares do PAN – incluindo os atuais governadores de Querétaro e Tamaulipas, Francisco Domínguez e Francisco Javier García Cabeza de Vaca, respectivamente – teriam recebido propinas em troca de votos a favor da reforma de Peña Nieto que liberalizou o setor de energia. A única referência a pessoas ligadas a Lopez Obrador foi feita sobre Miguel Barbosa, atual governador de Puebla, pelo Morena, que segundo Lozoya teria recebido favores da Pemex quando era senador pelo Partido da Revolução Democrática (PRD).
Silêncio e denúncias
Desde que Lozoya, que está enfrentando o processo judicial em liberdade condicional após acordo de delação premiada feito com o Ministério Público, voltou ao México, houve constantes vazamentos sobre as denúncias feitas por ele, mas até agora o documento completo da delação, apresentado em 11 de agosto, não estava disponível. Há quem aponte que o governo López Obrador estaria por trás da divulgação do documento, o que poderia afetar o processo judicial.
O presidente, acostumado a atacar diariamente seus rivais políticos, pediu ao Ministério Público, independente do Poder Executivo, que revele todas as informações do caso a fim de “estigmatizar” a corrupção de seus antecessores. Em entrevista coletiva, ele disse que não terminou de ler a denúncia para não ter “pesadelos” sobre este caso.
Enquanto Peña Nieto, Videgaray e Salinas de Gortari permaneceram em silêncio, os políticos do PAN mencionados denunciaram uma perseguição por parte do atual presidente.
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