Sábado, 22 de agosto de 2026
Por Jorge Ghiorzi | 22 de agosto de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A imponência poética do clássico de Homero encontra uma equivalente magnitude visual nas imagens colossais da adaptação A Odisseia (The Odyssey), de Christopher Nolan. Logo na abertura, o diretor nos lança em um território cercado de presságios e subtextos que preparam o terreno para o que está por vir. É uma imersão direta no desconhecido, na qual a imensidão física do cenário serve como metáfora para o vazio e a incerteza do próprio destino humano. Na condição de testemunhas, nos sentimos tão perdidos quanto os antigos navegantes diante de um oceano sem mapas.
A trama reconta a saga de Odisseu, vivido por Matt Damon como um líder calejado e assombrado pelas decisões do passado, cuja única obsessão é retornar à ilha de Ítaca após a guerra de Troia. Enquanto ele cruza mares perigosos em uma provação física e psicológica, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) resiste à pressão de pretendentes que tentam usurpar seu reino. Completa o núcleo central Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu, que tenta defender o legado da família. É a clássica história sobre família, lealdade, sobrevivência, destino e culpa.
Para traduzir a carga dramática e a imensidão desse mundo mitológico, Nolan rodou o filme inteiramente em película no formato IMAX de alta resolução. Essa decisão técnica resgata a essência do cinema como uma experiência coletiva e sensorial: a textura orgânica da película e a escala monumental das telas gigantes esmagam o espectador, transformando a sala de cinema em um templo de contemplação.
Os minutos iniciais desestabilizam temporariamente a compreensão pelo denso volume de informações. No entanto, essa vertigem é calculada. Por volta dos 50 minutos, as engrenagens narrativas entram nos eixos e o filme domina completamente a nossa atenção. Os quase 160 minutos de duração fluem com tal organicidade que passam sem o peso arrastado comum a produções desse porte.
A conexão com o clássico milenar fica ainda mais fascinante pela narrativa não linear. Essa estrutura fragmentada já estava presente na obra de Homero, que também começa no meio do caminho para resgatar o passado através de lembranças. A montagem dinâmica desses planos narrativos prende nossa atenção e nos faz navegar lado a lado com o protagonista.
Essa estrutura temporal serve com perfeição à Jornada do Herói. A viagem por cenários gigantescos espelha o universo interior de Odisseu, e cada obstáculo ganha uma roupagem psicológica. A fúria de Poseidon se transforma no peso do destino; o canto das sereias e os feitiços de Circe representam as tentações que nos desviam do caminho; o confronto com o Ciclope e a travessia entre Caríbdis e Cila equivalem às decisões limite. Ao passar por testes extremos, o herói precisa deixar o orgulho de lado para voltar para casa, provando que o maior desafio é encarar os próprios fantasmas. Essa provação interna se ilustra na epifania de Odisseu após a aniquilação de Troia e a destruição dos templos que provocaram a ira dos deuses.
Equilibrando fantasia mítica, ação e a escala íntima de um homem consumido pela culpa, o filme já nasce com ares de clássico. Como um “crime e castigo” no plano limite entre homens e deuses, Nolan transforma o remorso humano em uma saga cósmica, onde a busca pela redenção é tão monumental quanto as próprias lendas.
* Jorge Ghiorzi – crítico de cinema (jghiorzi@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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