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Colunistas A Ordem Mundial: poder, narrativas e disputas invisíveis

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Quando penso na ordem mundial, não consigo vê-la apenas como um conjunto de tratados, alianças e disputas econômicas. Para mim, ela é a tradução visível do código do tempo. É como se a gramática invisível que organiza nossa era se materializasse em relações de poder globais, em fluxos de energia e informação, em narrativas que legitimam quem manda e quem obedece.

A ordem mundial não é apenas geopolítica. Ela é também simbólica. Ela se sustenta em discursos que nos dizem o que é inevitável, o que é natural, o que é desejável. Quem controla esses discursos controla não apenas territórios, mas imaginários. E é nesse ponto que percebo como o código do tempo se infiltra silenciosamente: ele define quais narrativas podem ser aceitas, quais valores podem ser defendidos, quais futuros podem ser imaginados.

Hoje, vivemos em uma ordem mundial marcada pela interdependência e pela disputa por hegemonia tecnológica. Quem domina redes digitais, quem controla fluxos de dados, quem organiza cadeias energéticas, assume protagonismo. O poder já não se mede apenas em exércitos ou territórios, mas em capacidade de moldar sistemas e narrativas. É uma ordem que se reorganiza constantemente, mas que ainda carrega traços de centralização e desigualdade.

O curioso é perceber como essa ordem mundial se apresenta como inevitável. Somos levados a acreditar que não há alternativa, que os sistemas globais são imutáveis, que as hierarquias são naturais. Mas a filosofia nos lembra que nada é inevitável. A ordem mundial é construção humana, e como toda construção, pode ser questionada, pode ser reinventada.

Historicamente, vimos ordens mundiais se transformarem quando o código do tempo mudou. O fim da Idade Média trouxe uma nova gramática baseada na razão e no progresso científico. O século XX foi marcado por ideologias que reorganizaram o mundo em blocos. Hoje, vivemos sob o código da eficiência e da aceleração, e a ordem mundial reflete isso: tudo deve ser rápido, conectado, otimizado. Mas será que esse código ainda corresponde ao espírito da época?

Vejo sinais de descompasso. Há uma crescente demanda por sustentabilidade, por sistemas resilientes, por autonomia energética. Há consumidores que não querem apenas receber, mas participar, gerar, compartilhar. Há comunidades que buscam descentralização, que questionam a lógica extrativista, que pedem novas formas de organização. É como se o espírito da época já não coubesse na ordem mundial vigente.

Nesse ponto, a energia volta a ser metáfora poderosa. Quem controla fluxos energéticos controla narrativas globais. Mas a possibilidade de gerar a própria energia, de aquecer a própria casa, de mover o próprio carro sem depender de estruturas centralizadas, é um gesto que desafia a ordem mundial. É como se estivéssemos escrevendo uma nova narrativa, em que o poder não está apenas nas mãos de grandes sistemas, mas também na autonomia de indivíduos e comunidades.

O espiritual também atravessa essa reflexão. Vejo pessoas buscando sentido além das narrativas oficiais, procurando conexão interior, contemplação, práticas que não cabem na lógica da eficiência. Essa busca é sinal de que a ordem mundial, centrada apenas em poder e controle, já não basta. O espiritual surge como força silenciosa que tensiona e inspira, lembrando-nos que não somos apenas peças em engrenagens globais, mas seres em busca de significado.

O desafio filosófico é perceber que a ordem mundial não é destino. Ela é resultado de escolhas, de narrativas, de códigos. E, como toda construção humana, pode ser transformada. Se o código do tempo nos diz que devemos acelerar, podemos escolher desacelerar. Se a ordem mundial nos diz que devemos depender, podemos escolher gerar. Se o sistema nos diz que devemos obedecer, podemos escolher reinventar.

Este artigo é uma tentativa de mostrar que a ordem mundial não é apenas cenário, mas força ativa que molda nossas vidas. E de lembrar que, ao reconhecê-la, abrimos espaço para questioná-la.

Nos próximos textos, quero explorar como essa ordem se cristaliza nos sistemas que sustentam nossa vida cotidiana e como o espiritual atravessa tudo isso, oferecendo sentido onde o código falha. Quero mostrar que filosofia e prática se encontram justamente nesse ponto: no desejo de imaginar alternativas, de reinventar narrativas, de construir futuros diferentes.

Não oferecerei respostas definitivas. O que proponho é um convite à reflexão. Se a ordem mundial nos parece inevitável, cabe a nós decidir se seguimos o jogo ou se ousamos reinventá-lo — e talvez seja o espiritual, silencioso mas persistente, quem nos lembre que sempre há espaço para recomeçar.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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