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Geral A Páscoa na quarentena exige esforço extra do coelhinho

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Neste momento, a Páscoa deve ser vista como uma oportunidade para afastar o tédio e tornar o domingo mais lúdico. (Foto: Reprodução)

Sabemos que o Coelhinho da Páscoa anda estressado e sobrecarregado com tarefas impostas pela quarentena, mas ele precisa fazer esforço para dar uma passada, ainda que rápida, pelas casas das crianças. Tudo bem se ele não puder trazer o ovo incrível: a garotada entende que a situação está difícil para todo mundo, mas um bombom que seja, uma cartinha ou até pegadas seria bom ele deixar.

Diante das privações impostas pelo isolamento, a Páscoa deve ser vista não como mais uma frustração pela impossibilidade de reunir toda a família, mas como uma oportunidade para afastar o tédio e tornar o domingo mais lúdico.

“Brincar vai ajudar as crianças a elaborar essa fase e a entender a realidade. A brincadeira é uma oportunidade para que os pais possam entrar no mundo dos filhos e perceber o que eles estão sentindo. Na Páscoa, cada família costuma ter um ritual de comemoração, e cultivá-lo dá um eixo para as crianças”, diz a psicóloga Renata Rubano, especializada em orientação de pais para a educação dos filhos.

Pintar a casca de ovos cozidos, fazer ovos de chocolate, escondê-los, lembrar as brincadeiras que os adultos aprenderam na infância, criar ritual de celebração e se conectar com familiares para partilhar esses momentos são sugestões da educadora Adriana Friedmann, especialista na área da infância e autora de livros como “A Arte de Brincar” (editora Vozes) e “A Vez e a Voz das Crianças” (Panda).

O importante, ela propõe, é que pais e filhos criem juntos as brincadeiras, cozinhem, compartilhem histórias, músicas e o que sentem em relação à Páscoa e à situação que enfrentamos.

“No atual cenário, o fundamental é estar junto com as crianças e, no caso da Páscoa, contar a história e o seu significado, brincar, pesquisar curiosidades sobre a festa em diferentes lugares do mundo e nas várias religiões. Para os cristãos, a Páscoa simboliza a morte, a ressurreição e o nascimento para uma nova vida.

Esses temas podem ser tratados com as crianças recorrendo ao momento que a humanidade está vivendo, em que há esta grande mudança de encerramento de um período para nascimento de outro”, recomenda a educadora.

“Já entre os judeus, o significado da Páscoa, Pessach, evoca a libertação dos judeus da escravidão no Egito. Assim como em outros povos e culturas, a festa da Páscoa, que nasceu na Idade Média, simboliza a liberdade e a prosperidade. Essas histórias de como é a Páscoa para diferentes povos precisam ser contadas.”

Ao criar relações entre os significados da Páscoa e o coronavírus, é importante estar aberto às dúvidas, comentários e a todo tipo de reação das crianças: “É preciso escutá-las e acolhê-las. Se os pais não souberem responder a alguma das perguntas, devem conversar com outros adultos para buscar respostas, pesquisar, mas não se omitir sobre esses temas que são tão fundamentais: nascimento, liberdade, morte. Claro que da maneira mais adequada para cada idade”, lembra Adriana.

Escritora de literatura infantil e autora de mais de 40 livros, Heloisa Prieto compara o isolamento à época do surgimento dos ovos de Páscoa: “Hoje em dia, fora esse momento de pandemia, as casas não são habitadas como antigamente, os pais trabalham fora, as crianças vão à escola e têm atividades extracurriculares. Esta quarentena nos colocou um pouco em clima de século 19, quando as pessoas tinham de ficar e casa em países de clima frio, onde surgiu a tradição dos ovos de Páscoa.”

Ela recorre à mitologia, como costuma fazer em seus livros: “Ostara é a deusa germânica da fertilidade associada a lebres e ovos. Sua tradição celebra a criatividade. Desenhar mosaicos coloridos em formatos ovais, pintar cascas de ovos cozidos ou fazer bolos de chocolate podem ser atividades lúdicas que reúnem a família”.

Pesquisadora, escritora, documentarista e jornalista especializada em infância, Gabriela Romeu lembra a importância de deixar a criança explorar cada canto da casa ou do apartamento, por menor que seja, no isolamento, o que proporciona expansão do espaço. Nesse sentido, a caça aos ovos é grande oportunidade:

“As crianças formam um grupo que está em bastante sofrimento com tudo o que está acontecendo. Apesar de não serem grupo de risco do coronavírus, são extremamente afetadas pelo isolamento. Não podemos esquecer que elas se expressam pelo corpo, então temos que buscar formas de achar ‘quintais’ dentro de casa”, diz Gabriela.

O Coelhinho tem muito a ajudar nessa bagunça saudável. Gabriela comenta que, apesar de tantas ótimas dicas na internet de brincadeiras, livros, filmes, aplicativos e atividades para as crianças em quarentena, é importante lembrar “que a cultura lúdica reside em todos nós”.

“Todos temos esse repertório lúdico, ainda que esteja adormecido. Podemos aproveitar este momento em que estamos juntos para resgatá-lo. A sociedade sempre reclamou que havia pouca oportunidade para os pais ficarem com os filhos. Claro que agora a vida não está fácil, mas é a oportunidade para esse resgate”, diz Gabriela, enquanto sua caçula, Isabel, 4, corre pela casa, canta e chama pela mãe, que já tenta imaginar em que cantos do apartamento o Coelhinho esconderá os ovos no domingo.

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