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Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues A Polícia Mundial e o Estreito de Ormuz: quando o poder veste farda de vigilância

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A Polícia Mundial e o Estreito de Ormuz: quando o poder veste farda de vigilância Março ainda escorre pelas mãos como as águas que insistem em nos lembrar da passagem do tempo — e também das permanências. Entre elas, uma se destaca no cenário internacional: a recorrente presença dos Estados Unidos como uma espécie de “polícia mundial”, sempre de prontidão, sempre com um olho atento sobre regiões onde o equilíbrio é frágil e os interesses, profundos.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo deixou de ser multipolar para viver sob a sombra de dois grandes polos. Com o colapso da União Soviética, essa sombra tornou-se quase solitária. Os Estados Unidos passaram a ocupar não apenas o espaço de potência dominante, mas o papel de árbitro — e, muitas vezes, de executor — das tensões globais.

A metáfora da “polícia mundial” não é gratuita. Assim como nas ruas, onde a autoridade decide quando intervir, como agir e a quem proteger, também no cenário internacional as ações nem sempre seguem critérios universais. Há seletividade. Há conveniência. E, sobretudo, há interesse.

O século XX foi pródigo em exemplos. A Guerra do Vietnã talvez seja o mais emblemático. Ali, sob o argumento de conter o avanço do comunismo, os Estados Unidos mergulharam em um conflito distante, complexo e, ao final, incapaz de ser vencido pela força. A selva vietnamita não foi apenas um campo de batalha; foi um espelho onde se refletiram os limites do poder militar diante das realidades culturais e políticas de um povo.

Mas a história não se encerrou ali. Ao contrário, ela se reconfigurou. O fim da Guerra Fria não significou o fim das intervenções — apenas mudou seus discursos.

Democracia, direitos humanos, combate ao terrorismo: novas bandeiras para velhas práticas.

No Iraque, no Afeganistão, em diferentes pontos da América Latina e do Oriente Médio, a presença americana se fez sentir. Em alguns casos, com apoio local. Em outros, sob contestação internacional. Em todos, com consequências que ultrapassam gerações.

E agora, mais uma vez, os olhos do mundo se voltam para um ponto geográfico pequeno, mas de impacto colossal: o Estreito de Ormuz.

Ali, entre o Irã e a Península Arábica, passa uma parcela significativa do petróleo que alimenta o planeta. Não é exagero dizer que aquele estreito funciona como uma artéria vital da economia global. Qualquer obstrução ali não é apenas um problema regional — é um abalo sistêmico.

É nesse contexto que a presença dos Estados Unidos ganha novos contornos. Não se trata apenas de vigiar, mas de garantir que o fluxo — de petróleo, de comércio, de influência — não seja interrompido. A justificativa é a segurança da navegação. O pano de fundo, contudo, revela algo mais profundo: o controle das engrenagens que movem o mundo.

O Irã, por sua vez, tensiona esse equilíbrio. Ao ameaçar fechar o estreito em momentos de crise, expõe a vulnerabilidade de uma ordem internacional que depende de poucos pontos críticos para funcionar. É como se o mundo moderno, com toda a sua tecnologia, ainda estivesse preso a gargalos geográficos que definem seu destino.

Há, nesse cenário, uma pergunta que ecoa: até que ponto a atuação de uma potência como “polícia mundial” garante estabilidade — e em que momento ela passa a alimentar as próprias tensões que busca conter?

A resposta não é simples. A presença americana pode, sim, evitar conflitos maiores.

Mas também pode acirrar rivalidades, reforçar ressentimentos e perpetuar uma lógica de dependência e intervenção.

Talvez o grande dilema do nosso tempo esteja exatamente aí. Vivemos em um mundo que clama por ordem, mas desconfia de quem se propõe a impô-la. Um mundo que precisa de estabilidade, mas teme o preço que ela cobra.

Como ensinava Sêneca, “nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige”. O problema é que, no cenário internacional, há muitos capitães tentando definir o rumo — e nem todos concordam sobre o destino.

O Estreito de Ormuz, hoje, é mais do que um ponto no mapa. É símbolo de um tempo em que o poder ainda se exerce pela presença, pela força e pela vigilância constante.

Um tempo em que a farda da “polícia mundial” continua em uso — ainda que cada vez mais questionada.

E, como nas águas de março, resta-nos observar: o que escorre é apenas o tempo — ou também a ilusão de que o mundo pode ser controlado por uma única mão?

(Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor – castilhosadv@gmail.com – @castilhosadv)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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