Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 5 de setembro de 2019
A crise política causada pelas indefinições do Brexit (como é chamada a saída do Reino Unido da União Europeia) ganhou nesta quarta-feira (4) um novo capítulo após o Parlamento britânico aprovar um projeto que proíbe o país de deixar a UE (União Europeia) sem antes ter um acordo com o bloco para regular a relação futura entre eles. As informações são do jornal Folha de S.Paulo e das agências de notícias Reuters e AFP.
Mais tarde, em outra derrota para o primeiro-ministro Boris Johnson, os parlamentares votaram contra novas eleições gerais em 15 de outubro, um desejo do premiê.
As decisões foram interpretadas como declarações de guerra dos deputados contra o governo de Boris, que defende o divórcio com Bruxelas a qualquer custo.
Com apoio da oposição e de rebeldes do governista Partido Conservador, a medida que proibiu a saída sem um acordo foi aprovada com 329 votos a favor e 300 contrários. Já a que barrou o pleito antecipado teve 56 votos a favor e 298 contra.
O premiê respondeu dizendo que, 48 horas atrás, o líder da oposição Jeremy Corbyn queria “parar o golpe” e deixar as pessoas votarem. “Agora ele está dizendo ‘pare as eleições’ e ‘impeça as pessoas de votarem’.”
Boris criticou o fato de Corbyn “ter recusado o convite para uma eleição”, acrescentando que acredita que o opositor não ganharia.
Nesta quarta, o líder trabalhista se pronunciou no Parlamento em crítica às iniciativas de Boris, principalmente no que se refere à ameaça de convocar novas eleições.
“Oferecer eleições antecipadas é como oferecer a maçã para a Branca de Neve porque o que se tem não é maçã ou eleições, mas o veneno de um ‘no deal’.
O premiê assumiu o cargo em julho prometendo que o brexit iria acontecer na data marcada —31 de outubro de 2019.
Mas, com a resolução que proíbe o desligamento sem um acordo, a saída agora pode ser adiada para o ano que vem, aumentando a incerteza que assola o país.
O texto aprovado estabelece que o governo britânico tem até o dia 19 de outubro para fechar um trato com Bruxelas, sede da burocracia europeia, e aprová-lo no Parlamento.
Caso isso não aconteça, o premiê deve pedir aos líderes europeus um adiamento de 90 dias do divórcio, até 31 de janeiro.
“O que nos une é a convicção de que não há apoio para [uma saída] sem acordo, e as consequências disso para nossa economia e para nosso país seriam muito pesadas”, disse o deputado trabalhista Hilary Benn, autor da proposta.
Segundo o jornal Financial Times, os europeus estão dispostos a estender o prazo, desde que Londres tenha uma boa justificativa —a data inicial do divórcio era 29 de março de 2019, mas já foi adiada duas vezes.
Para virar lei, o projeto aprovado pelos deputados ainda deve passar pela Câmara dos Lordes (espécie de Senado) e receber a confirmação da rainha.
A previsão é que isso aconteça até segunda (9), quando o Parlamento deve ser suspenso por cinco semanas em função de uma manobra do premiê.
Com isso, o trabalho será retomado apenas na segunda quinzena de outubro, a poucos dias da data do brexit. Essa suspensão, apontada como estratégia para reduzir os debates, gerou diversos protestos no fim de semana por todo o país e que se repetiram nesta quarta em frente ao Parlamento.
O gesto de Boris visava reduzir o tempo que deputados teriam para bloquear uma saída abrupta do Reino Unido do bloco, como a que o líder conservador vinha repetidamente mencionando em discursos e entrevistas.
O primeiro-ministro afirmou nesta quarta que independentemente do que decidir o Parlamento, ele pretende fechar com a União Europeia um novo acordo de separação em 17 de outubro, data de uma cúpula do bloco.
Os líderes europeus, porém, têm se mostrado pessimistas com a possibilidade de fechar um pacto e afirmam que até o momento Boris não apresentou nenhuma proposta para isso.
O premiê havia avisado que não aceitaria a nova regra e pretendia convocar novas eleições para 15 de outubro. Para o pleito acontecer, porém, a votação precisava ser aprovada por dois terços do Parlamento, e a oposição já declarou que só apoiará novas eleições após ter garantias de que o brexit sem acordo não acontecerá em nenhuma hipótese.
“Nós não seremos enganados ou ludibriados por Johnson, por isso estamos estudando todas as maneiras pelas quais, tendo garantido a legislação, ele não possa se esquivar de cumpri-la” disse John McDonnell, o número dois do Partido Trabalhista, a principal sigla de oposição.
A votação fora de época também pode ocorrer caso seja aprovada uma moção de desconfiança contra o premiê e, em 14 dias, não houver acordo para a formação de um novo governo.
Em condições normais, as eleições gerais no Reino Unido ocorrem a cada cinco anos —a próxima está marcada para 2022.
Decidido em plebiscito de junho de 2016, o adeus de Londres ao bloco foi objeto de negociações formais entre os dois lados por mais de um ano e meio.
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