Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 2 de maio de 2020
Instalada em sua fazenda, no município de Aliança, em Tocantins, onde está em isolamento por causa da pandemia de coronavírus, a senadora Kátia Abreu (PP-TO) interrompeu o preparo do almoço (frango com açafrão, pequi, arroz e feijão) para conceder uma entrevista ao portal UOL.
Começa tratando da audiência pública em que o ministro da Saúde, Nelson Teich, tentou explicar aos senadores os seus planos contra o coronavírus. Ela não gostou do que ouviu.
“Não posso deixar de registrar que eu, assim como vários colegas, achamos que ele está um pouco perdido no meio do ‘tiroteio'”, avalia Kátia. “Cadê o planejamento geral?”.
Também não tem palavras de elogio para o esboço do projeto de ajuda a Estados e municípios pelas perdas com a pandemia, que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), encaminhou na quinta-feira (30). O objetivo, defende, deveria ser o governo federal compensar prefeitos e governadores pela perda de arrecadação causada pela desaceleração da economia.
“O relatório preliminar do Senado fugiu bastante dessa compensação”, critica. A senadora diz ter ficado preocupada ao saber que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não participou da elaboração do texto e defende o trabalho conjunto entre as duas Casas Legislativas.
Sobre os comentários relativos a impeachment, apesar de vários pedidos formais encaminhados ao Congresso, Kátia avalia que não há clima entre parlamentares para o impedimento do presidente Jair Bolsonaro. Sugere, no entanto, que ele não se contente em agradar apenas os 30% de brasileiros que, segundo as pesquisas, se mantêm em suas fileiras.
A seguir, os principais trechos da entrevista da senadora Kátia Abreu, que foi ministra da Agricultura no governo de Dilma Rousseff e candidata a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes, na última eleição:
Perdido no “tiroteio”
Registro que o currículo do ministro (Nelson Teich) é excelente, ele tem uma boa credibilidade no meio como profissional na área de Oncologia, é um empresário. Não quero fazer nenhuma crítica pejorativa ou destrutiva em relação ao ministro. Mas não posso deixar de registrar que eu, assim como vários colegas, achamos que ele está um pouco perdido no meio do “tiroteio”.
Sem entrar no mérito se o ministro Mandetta era ótimo, regular ou era péssimo, o presidente tinha o direito de trocar. Mas trocar o general comandante no meio da guerra traz esses atrasos. E a nossa guerra é contra uma doença, pela vida. Já fui ministra e sei que não é fácil tomar pé das coisas com o carro andando, ainda mais no meio de uma pandemia.No caso da pandemia, o sentimento deveria ser de urgência urgentíssima. Não percebi que existe uma estratégia consolidada por parte do ministério.
Projeto do Senado
Conversava com o Rodrigo Maia para saber as impressões dele a respeito (do relatório do projeto confeccionado pelo presidente do Senado Davi Alcolumbre), porque quando falo com ele, falo com a Câmara. “Rodrigo, qual as suas impressões com relação ao relatório do Davi Alcolumbre?” Para minha surpresa, ele me declarou que não conhecia o relatório, que estava estudando ainda. Perguntei se não tinha sido construído de comum acordo? Ele disse: “Não, Kátia. Conversamos bastante, mas a construção do relatório, as letras pretas no papel branco, eu não tive a oportunidade de ver”. Isso me preocupou um pouco.
Mas o Rodrigo me disse que está com toda boa vontade, não tem nenhuma dificuldade em fazer modificações, que está aberto ao diálogo. A Câmara não conhece o relatório, então não foi construído com acordo. Nós agora é que estamos dialogando.
Impeachment
Não falo em nome de ninguém, mas a impressão que eu tenho é que o impeachment não está na cabeça dos deputados e senadores. O último impeachment está muito fresco, as feridas ainda estão abertas, nós tivemos prejuízos enormes. Não vejo essa disposição, não vejo esse ânimo dos parlamentares.
Existe a possibilidade de impeachment? Claro, está na Constituição. Já fizemos dois depois da redemocratização, mas isso traz consequências graves. Eu, Kátia, particularmente até empolo, arrepio, quando fala em impeachment.
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