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Colunistas A solidão que ninguém vê atinge em torno de 84% dos adolescentes brasileiros em plena era digital

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O adolescente passa horas no celular, mas raramente conversa com os pais

Foto: Reprodução
O adolescente passa horas no celular, mas raramente conversa com os pais. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A solidão que ninguém vê é a epidemia da solidão moderna – o vazio não percebido. Conectados por fora, solitários por dentro. Muito on-line, e pouco pertencimento. Se você imagina que seu filho adolescente, em casa o dia todo, está “bem acompanhado e cuidado”, pesquisas recentes contrariam esse pensar.

Através da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), em março, o IBGE e organismos ligados à ONU apontam que 84% dos adolescentes pesquisados, na faixa de 13 a 17 anos, relataram tristeza, angústia, ansiedade, depressão e ausência de significado para a vida. E, percentual elevado de adolescentes, praticam automutilação ou tiram a própria vida. Neste item, o Rio Grande do Sul supera em muitos outros Estados.

Um em cada três adolescentes afirmaram viver isolados. E esta solidão tem endereço certo: o excesso de tela e a falta de interação pessoal (humanidades), com a família e dentro do lar (casa).

O adolescente passa horas no celular, mas raramente conversa com os pais, a não ser quando questionado sobre notas da escola, tarefas ou horários. Esse isolamento é visto como coisas da “aborrescência” depois passa, ficando praticamente normalizado. Os pais tentam se aproximar, mas falam a linguagem/questionário. Pouco é o esforço de acompanhar a fala monossilábica (linguagem do adolescente). Resultado: ele se tranca no quarto, novamente. E a família se torna um grupo de estranhos, morando no mesmo lar. O erro é tratar como criança e cobrar como adulto.

Adolescência não é nenhuma das duas coisas. É nascer de novo. É o espaço entre criança e adulto, onde tudo é incerto. Tratar como criança gera rebeldia. Cobrar como adulto gera afastamento. O que pode dar resultados é o meio-termo: cuidar como quem ensina um bebê a andar. Você não xinga quando ele cai. Você segura a mão, dá risada, tenta de novo. Mais afeto, menos crítica. Nunca a omissão.

O adolescente, por estar vivendo períodos de afastamento emocional e interiorização, tem a sensibilidade tão aguçada quanto os hormônios. E sente quem torce de verdade por ele. E para estes, disponibiliza afeto e confiança. Sem isso, toda palavra, todo o pedido vira ataque.

Abraça mais. Convida o teu adolescente para atividades que ele gosta de fazer, alimentos que ele gosta de degustar. Pergunta sobre jogos, filmes, séries prediletas, músicas e outros. Não para investigar, mas para estar junto.

Tira ele do quarto, não na marra, mas mostre que lá fora pode ter algo melhor que a tela. Visualizei a miragem de um deserto. A adolescência é um deserto. Seco, desconfortável, confuso. Mas deserto não se habita, se atravessa. Deserto não é morada é travessia, e ninguém atravessa o deserto sozinho. Se a família aceita passivamente que é “coisas de adolescente”, vira omissão/abandono sob custódia.

Se fica por perto, vira oásis. Mais braços e abraços. Mais presença, menos julgamento. Enfim, o teu, o nosso, o adolescente precisa não é de ter todas as respostas, mas, sim, de construí-las com paciência e amor, tendo junto de si, caminhando ao seu lado, um mentor que seja referência de acolhimento e experiência. Então, ele “vai construindo suas verdades” até chegar do outro lado do deserto. Resgate seu adolescente.

* Ester Garcia, psicanalista e neurocientista

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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