Sexta-feira, 19 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 18 de junho de 2026
Depois de quatro anos de guerra, a fronteira entre Ucrânia e Rússia vê uma rotina diferente dos últimos meses. Ao invés de avanços rápidos por diversas direções, a Rússia vê o aumento do bombardeio de estruturas importantes para a sua economia. No lugar de tanques em Kiev, drones ucranianos pairam sobre as cabeças de soldados russos que já não contam com internet para se comunicar ou grandes hordas de homens dispostos a entregar a vida pela conquista de territórios.
A força russa, que parecia arrasadora, agora enfrenta uma virada de forças no front, mesmo que momentânea: perdendo cidades desde o início do conflito, os ucranianos têm atenuado as métricas com a maior recuperação de quilometragens de seu próprio território desde 2023.
Isso não significa que a Ucrânia está, agora, ganhando a guerra – ou mesmo próxima de reaver todos os territórios em disputa, principalmente a região de Donbas – acreditam especialistas ouvidos pelo Estadão. Mas marca uma nova fase do conflito onde a priorização da logística e da estratégia a longo prazo começa a mostrar seus efeitos para ambos os lados.
“A vantagem nesta guerra tem oscilado ao longo do tempo. O que temos visto, agora, é uma retomada da iniciativa pela Ucrânia e uma Ucrânia atacando a Rússia de maneiras que deixam claro que ela não é apenas uma vítima passiva da agressão, mas pode, de fato, ter vantagem estratégica nesta guerra”, explicou Keir Giles, pesquisador associado do Programa Rússia e Eurásia na Chatham House.
O ganho territorial sempre foi crucial para Moscou. Entre 2022 e o começo de 2026, a Rússia chegou a controlar mais de 20% do território ucraniano, cerca de 118.641 quilômetros quadrados. Mas, desde março deste ano, o avanço do exército do Kremlin tem sido cada vez mais lento e a Ucrânia conseguiu recuperar pedaços importantes do mapa na batalha.
No começo de junho, Oleksandr Syrskyi, comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, afirmou que o país tinha recuperado mais de 600 quilômetros quadrados de território desde o início do ano. O presidente Volodmir Zelenski já havia citado o número em uma mensagem no Telegram no mês passado. O Institute for the Studies of the War (ISW) estimou que, apenas em maio, 290 quilômetros quadrados foram recuperados pelo exército ucraniano.
A região recuperada faz parte dos cerca de 1,2 mil quilômetros que formam a frente de batalha atualmente, uma linha que abrange as proximidades das cidades de Kostyantynivka, Pokrovsk e Kherson, mas a posição exata dos territórios não foi divulgada pela Ucrânia. As cidades ficam na região de Donbas, zona reclamada pelo presidente russo Vladimir Putin. A área é um ponto central na disputa entre os dois países.
“(A Rússia) quer que a Ucrânia entregue Donbas como pré-condição para que as discussões sobre o cessar-fogo comecem e isso não vai acontecer. Então veremos mais guerra, mais destruição e a Rússia conduzindo uma guerra total de infraestrutura na Ucrânia”, apontou Max Beznosiuk, pesquisador associado do Centro para a Europa Global da GLOBSEC.
Em abril deste ano, a Ucrânia afirmou que mais de 35 mil soldados russos haviam sido mortos ou feridos gravemente no mês, o que representaria uma baixa de 83 mil militares russos apenas em 2026.
O recrutamento de novos combatentes para a guerra tem sido uma das maiores dificuldades russas na fase atual do conflito. A remuneração oferecida às famílias, por exemplo, tem começado a pesar na economia do país, que tem destinado quase 8% do seu PIB aos gastos no conflito.
“Isso custa uma fortuna para a Rússia, porque eles não estão recrutando por meio de mobilização, mas sim por meio de enormes bônus de recrutamento que têm sido pagos para atrair pessoas e dos benefícios por morte que são prometidos”, afirmou Giles. “Isso representa um enorme peso não apenas para o orçamento federal, mas também para os orçamentos regionais. E essa é uma das razões pelas quais essa guerra é tão incrivelmente cara para a Rússia e por que está causando danos permanentes à economia”.
Para Beznosiuk, a questão vai além do bônus financeiro e dos salários que o governo russo paga aos familiares dos soldados: a própria experiência da guerra vivida por pessoas próximas faz com que exista uma resistência, que se dá pela saída de pessoas do país e pela recusa em novos alistamentos.
“Todas aquelas pessoas que queriam lutar já estão mortas em ambos os lados. Mesmo tendo bônus e condições atraentes, ainda é muito difícil e eles têm problemas com isso. Provavelmente vão recorrer a uma mobilização oficial de novo. É uma medida muito impopular, mas eles podem fazer isso”, explicou Beznosiuk.
Além disso, depois de quatro anos, a Rússia estaria com dificuldades na renovação de seus equipamentos e arsenal para levar para o front. Parte da artilharia do país ainda é uma herança da era soviética e a fabricação de armamento atual seria muito mais lenta do que a demanda da linha de frente.
Outro ponto destacado por especialistas que conversaram com o Estadão é um fator externo, fora das mãos do Kremlin, mas que tem feito a diferença para os soldados russos: a SpaceX, empresa de exploração espacial de Elon Musk, suspendeu o uso russo dos satélites da Starlink, que oferecia o único acesso facilitado à internet no território. Com o bloqueio do sinal, o exército de Putin teve dificuldade na comunicação entre as pontas de combate.
Antes do corte de internet, o governo Putin já tinha proibido o uso do app de mensagens Telegram por cidadãos russos, tirando de seu próprio exército a principal forma de comunicação entre os militares.
“É evidente que teve um impacto significativo e tem sido creditado por ter contribuído para conter alguns desses avanços territoriais ucranianos e pelos fracassos das operações russas. O que é um indício de duas coisas. Em primeiro lugar, a natureza improvisada da forma como a Rússia está construindo suas novas forças armadas, mas também como empresas ocidentais estavam, na verdade, prestando seus serviços à Rússia para levar adiante essa guerra genocida”, afirmou Giles.
Tudo isso contribuiu para que a Rússia fizesse avanços lentos em 2026. De acordo com o ISW, o exército de Putin se movimentou neste ano com cerca de um terço da velocidade com que se movia no ano passado – uma média de 2,9 quilômetros quadrados por dia em relação aos 9,7 quilômetros quadrados diários conquistados em 2025.
Se de um lado a vulnerabilidade momentânea da Rússia tem feito uma campanha devagar na guerra, do outro a Ucrânia aproveitou seu ponto forte para prolongar a situação o máximo possível para reaver seus territórios. Tendo se tornado uma das maiores especialistas em drones do mundo, o país quase dobrou a produção dos equipamentos e tem usado essas armas de forma contundente na linha de frente russa.
“A Ucrânia deu um salto quântico no desenvolvimento de drones, porque agora eles estão sendo usados para fins de médio e longo alcance. Isso pegou a Rússia de surpresa. Isso significa que o campo de batalha está mais visível para a Ucrânia e as zonas de morte, onde há muitas baixas, são facilmente atacadas por drones. Agora isso funciona nos dois sentidos, porque a Rússia antes tinha vantagem. Agora não tem mais”, apontou Beznosiuk.
Segundo o ISW, a principal estratégia tem sido mirar em soldados russos e atacá-los sempre que se movimentam. Assim, a Rússia estaria sendo obrigada a avançar com uma média de dois a três soldados apenas por vez em toda tentativa ofensiva no território.
Novos sistemas de software também fizeram com que a Ucrânia ganhasse impulso na corrida pela recuperação de territórios. De acordo com o ministro da defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, novos programas de inteligência artificial (IA) estão sendo utilizados, principalmente nos drones. Fedorov foi o responsável por criar uma divisão de IA e processamento de dados para desenvolver estratégias e turbinar equipamentos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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