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Colunistas A última estação  

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Ele se apercebeu, justamente no dia do aniversário, que já passara a barreira simbólica dos oitenta. Viu, no mostrador do relógio que o acompanhava há muitos anos, que era pouco mais de seis e meia da manhã. Na dúvida, resolveu fazer uma “preguiça” que, na sua época de vida intensa, sempre lamentara não poder desfruta-la e, agora, intimamente, descobriu não saber como desfrutá-la.

Para incomodá-lo (?), veio-lhe à mente pensamento triste de Bernard Shaw: “só temos tempo bastante para pensar no futuro quando já não há futuro para pensar”. De qualquer maneira, sentiu-se vitorioso porque já estava levantando. Dizia mais o irônico Shaw, “sonhemos; o sonho é o olho do futuro”. Ele achou que tinha uma missão. E foi cumpri-la.

Tudo isso porque, depois de dois anos de doenças, mortes, depressões, os nove amigos ou o que sobrara da grupo “programara”, como antes, almoçar juntos.

Seria na tradicional churrascaria, na mesa de canto, de onde podiam observar os demais sem ser observados.

Ao chegar – de táxi, porque a família, sabendo de algumas trapalhadas, que cometera, bloqueou-lhe, a Carteira de Motorista – procurou pela mesa de canto. Não encontrou nem a mesa nem o canto.

Dirigiu-se para a Caixa, onde, por mais de 30 anos, saudava afetuosamente o Seu Jardim, sócio da firma e sua versão humanizada. Não o encontrou. Estranho não ver sinais das referências. Sentiu-se perdido: quem sabe dera um nome ou endereço errado para o taxista? Logo, aprumou-se. Chamou por Fernando, o garçom que os atendia há um quarto de século e, solícito, como sempre, o deixaria bem informado sobre as mudanças ocorridas. Francamente, a nova decoração tirara o que tinha de orgulho gaúcho. Lembrava uma simetria repetitiva. Repartição pública de Brasília. Sem graça, enfim…

Sofreu um impacto, sentimentalmente demolidor, quando, perguntado, o jovem garçom lhe disse: há dois anos Fernando se aposentou e, afirmou numa discussão com os novos donos: “se deixarem as providências necessárias por conta do paladar de vocês, a carne vai apodrecer e o vinho vai azedar”. Dai foi-se…

Estaria logo bem longe. Fez um ar de desesperança, ante o olhar estupefato do jovem atendente, que não se apercebeu que o passado não morrera (vivia na memória, numa caixinha, onde se deposita a história de uma vida).

Voltou para casa. Correu para o telefone, a fim de avisar os demais – não se deu conta de que quase inexistiam – que a churrascaria tradicional virara um lugar sem alma. Passou a ser um restaurante, como tantos outros; que “nosso garçom” , morto, virara lenda, merecendo sepultar-se com o próprio restaurante.

Os telefonemas serviram para testar até que ponto um e/ou outro, sobrevivera(am). Feita a primeira ligação, uma voz metalizada (quando perguntou) ,  respondeu com outra pergunta: “mas o senhor não soube? E veio em seguida a confirmação: seu Paulo já faleceu!

Dos 8 parceiros cinco já tinham falecido (enfarte, AVC, acidente automobilístico). Um sexto lutando contra o câncer fazia quase um ano; outro estava vegetativo, depois de mal sucedida cirurgia cerebral. Era uma condenação à morte, mesmo sem se-la.

Também para eles, estaria visível no mundo eterno das frustrações; era o poema que perdera a rima, a música que não levara os últimos acordes. Dos seus usuários ficara escondida, quem sabe, atrás de uma porta, a saudade até do não ocorrido.

De qualquer maneira, o sétimo companheiro, sabendo, amargurado, o destino continuado e progressivo dos amigos, desapareceu. Quem sabe se não se fizera ermitão? Nunca mais foi visto. Nunca mais quis ver.

O sobrevivente condenado a continuar lúcido, incumbido (não se sabe bem por quem) de fazer vivo o que, para os demais, já morrera, convenceu-se que teria de crer, mesmo sabedor da irrepetibilidade dos fatos do passado.

Importante mais, ou importante menos, lembrou-se do poeta francês  (Paul Valéry) e repetiu a frase  que poderia (quem sabe) responder as suas dúvidas, ao garantir “que  o futuro não era mais o que costumava ser”. Talvez, no mais profundo intencional  existisse um fio  de esperança para ajudar a entender até mesmo os meandros, tidos como incompreensíveis, da vida e da morte.

Ao derredor, o silêncio penetrante de sua solidão. Eram os insondáveis comandos do destino; a um tempo só, tão mau e tão generoso. Como só ele, naquela viagem, que guardava o mistério da partida e da chegada, saudoso, apercebeu-se que a última estação estaria próxima.

Carlos Alberto Chiarelli

cagchiarelli@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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https://www.osul.com.br/a-ultima-estacao/ A última estação   2017-09-30
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