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Comportamento A violência vicária ocorre quando o agressor utiliza os filhos, ou pessoas próximas, como instrumentos para causar sofrimento psicológico extremo à mulher

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Diferente da violência doméstica direta, a violência vicária é um "crime por procuração". (Foto: Reprodução)

O termo pode até parecer novo para muitos, mas a dor que ele carrega é devastadora e dói na alma, como vem acontecendo com Sarah Araújo, mãe de dois filhos, mortos pelo pai, o secretário de Itumbiara, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, que logo depois se suicidou. O fato, que aconteceu em Goiás, chocou todo o país e mostrou um lado ainda mais perverso do que acontece com as mulheres.

A violência vicária ocorre quando o agressor utiliza os filhos (ou pessoas próximas) como instrumentos para causar sofrimento psicológico extremo à mulher. No Brasil, casos recentes mostram que essa prática tem escalado de ameaças para tragédias irreparáveis, acendendo um alerta vermelho nas autoridades e na sociedade.

Diferente da violência doméstica direta, a violência vicária é um “crime por procuração”. Na definição da psiquiatria, o agressor instrumentaliza terceiros, especialmente os filhos, para provocar sofrimento emocional, controle e punição à mulher. Segundo especialistas, esse padrão atinge os dois núcleos fundamentais da identidade feminina: a segurança pessoal e o vínculo materno. Ao ferir o filho, o agressor impõe à mulher uma ‘sentença de morte em vida’.

De acordo com a psiquiatra Lidiane Silva, a violência vicária é compreendida como uma forma grave de violência por parceiro íntimo na qual o agressor utiliza terceiros, especialmente os filhos, como meio de provocar sofrimento emocional, controle e punição da mulher. “Diferentemente de outras formas de violência psicológica, em que o ataque é direto, na violência vicária o dano é produzido de maneira indireta, instrumentalizando a criança para atingir a mãe. Esse padrão inclui ameaças de afastamento, manipulação emocional dos filhos, impedimento de convivência, falsas acusações, disputas judiciais abusivas e estratégias contínuas de controle após a separação”, explica a profissional.

Ela acrescenta que a literatura internacional sobre violência doméstica, incluindo documentos da World Health Organization, reconhece que a violência contra a mulher frequentemente continua após o término da relação e pode ocorrer por meio dos filhos, configurando um mecanismo de controle coercitivo persistente. “A violência vicária costuma produzir impactos psiquiátricos profundos nas mulheres porque atinge simultaneamente dois núcleos fundamentais da identidade feminina: a segurança pessoal e o vínculo materno. Clinicamente, observa-se alta prevalência de transtornos depressivos, transtornos ansiosos, transtorno de estresse pós-traumático, insônia crônica, crises de pânico e estados de hipervigilância.

Muitas mulheres desenvolvem sofrimento psíquico intenso associado a culpa materna, sensação de impotência, medo constante de perder o filho e desgaste emocional prolongado. Diferentemente de outras formas de violência, esse quadro tende a ser crônico, pois o agressor permanece presente na vida da vítima por meio da parentalidade, mantendo um estado contínuo de ameaça psicológica. Estudos mostram que a imprevisibilidade sobre o acesso ao filho e a instabilidade jurídica aumentam o risco de adoecimento mental e podem levar a quadros de exaustão emocional severa, isolamento social e prejuízo funcional importante”, pontua.

O que preocupa ainda mais, segundo a especialista, é que esse tipo de violência é difícil de ser reconhecido até pelas vítimas. “A violência vicária é difícil de reconhecer porque raramente se apresenta como agressão explícita. Ela costuma surgir disfarçada de preocupação parental, disputa de guarda ou conflito conjugal comum, o que dificulta a identificação tanto pela vítima quanto pela rede social e institucional. Além disso, frequentemente existe manipulação psicológica sistemática, distorção de fatos e desqualificação da mulher, levando-a a duvidar da própria percepção.

Outro fator relevante é o medo real de perder contato com os filhos, que faz muitas mulheres evitarem confrontar o agressor ou denunciar a situação. Do ponto de vista psiquiátrico, o estresse traumático prolongado reduz a clareza cognitiva, aumenta a ansiedade e pode levar a um estado de sobrevivência emocional, no qual a vítima passa a focar apenas em manter o mínimo de estabilidade para preservar o vínculo com a criança, dificultando ainda mais a percepção do abuso como violência estruturada.

Terapeuta, especialista em Constelação Familiar Sistêmica e mentora de mulheres, Adriana Ribeiro compartilha da mesma opinião. ”É uma violência silenciosa, sem marcas físicas, muitas vezes confundida com conflitos comuns de separação. Também é importante compreender que aqui não se trata de homem ou mulher, e sim da dor de quem não consegue aceitar o fim da relação e, consciente ou inconscientemente, acaba envolvendo os filhos no conflito”, afirma, acrescentando que pelo olhar sistêmico, ela é colocada em um lugar que não é o seu. Ela aprende inconscientemente que tem que escolher um dos dois e isso trará sequelas na fase adulta”.

De acordo com a profissional, o agressor usa os filhos como ponte de poder, dificultando contatos, distorcendo fatos, fazendo ameaças ou colocando a criança contra o outro genitor. “Assim, o controle emocional continua mesmo após o término. A longo prazo, podem surgir insegurança, dificuldade de confiar, medo de abandono e confusão sobre o que é um vínculo saudável, o que pode influenciar os relacionamentos futuros. Pode ainda haver ansiedade e transtornos de comportamento”. As informações são do jornal O Dia.

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