Sábado, 20 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 19 de junho de 2026
O Brasil avançou na implementação de internet adequada nas escolas públicas nos últimos anos, mas não tem conseguido disponibilizar computadores aos estudantes na mesma velocidade. É o que revelam dados de uma nota técnica da Coalizão Tec Educação, formada por cinco instituições da sociedade civil.
Segundo o grupo, formado pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), Fundação Lemann, Fundação Telefônica Vivo, Instituto Natura e MegaEdu, a proporção de escolas públicas com internet adequada — aquela com velocidade de 1mpbs por aluno no maior turno, quando a conexão é terrestre, ou mínimo de 20mbps na escola quando é por satélite — saltou de 49%, em dezembro de 2023, para 74,1%, em março de 2026. Apesar da melhora, o percentual ainda está distante da promessa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciada em 2023, que é chegar a 100% até o fim do ano.
Os dados mostram que 29 das 73 redes estaduais e municipais que concentram metade dos alunos do país têm mais de 80% de escolas com conexão nesse patamar.
“Tenho uma expectativa de que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que está para ser divulgado em breve, já mostre uma forte correlação entre a aprendizagem dos alunos e as redes que mais conseguiram avançar nesse processo de conexão de suas escolas”, afirma a diretora-executiva do Cieb, Julia Santa’Anna.
Na avaliação da nota técnica, o avanço no número de escolas conectadas se deu devido “à ampliação e à viabilização do uso de fontes de financiamento antes travadas por questões burocráticas”. A principal delas é o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que existe há 20 anos, mas só em 2020 o Congresso permitiu que esse recurso fosse para a conectividade de escolas.
Outra fonte importante foi o leilão do 5G, que possibilitou às operadoras de celular operarem a tecnologia. A contrapartida de um dos quatro lotes vendidos foi a obrigação de levar internet às escolas. Esse recurso financiou o programa Aprender Conectado, focado em colégios mais vulneráveis, em especial na região Norte e em áreas rurais afastadas da infraestrutura de conectividade.
Esse grupo concentra menos alunos e é o mais desafiador — já que requer tecnologias como satélite, por exemplo. De acordo com Santa’Anna, o país já avançou bastante conectando essas escolas, mas é o que ainda falta para o presidente Lula atingir a meta de 100%.
“É possível, sim, atingir. Esses processos já foram iniciados com recursos do Fust e do Aprender Conectado”, afirma a especialista.
O estudo, no entanto, mostra que a oferta de computadores nas escolas avança de forma mais lenta. Em 2023, 30% das escolas tinham a quantidade considerada adequada pelo Ministério da Educação (MEC), que é de um dispositivo para cada dez alunos. Em 2025, isso subiu para 39%. Entre as 73 maiores redes de ensino do país, apenas 17 chegaram ao patamar de 80% dos colégios com essa quantidade de equipamentos.
Linha de financiamento
Sant’Anna afirma que o Censo Escolar de 2026, que só será divulgado no ano que vem, deve mostrar mais um avanço nesse aspecto, mas que esse é um desafio maior porque o governo federal não possui uma linha de financiamento específica para isso. Ainda assim, diz a diretora-executiva do Cieb, o Ministério da Educação (MEC) conseguiu induzir essas compras com a criação de atas de registro de preços — modalidade de licitação que ajuda estados e municípios a encontrarem o preço mais baixo para equipamentos: “Essa é a perna mais desafiadora do ponto de vista financeiro. Se, por falta de orçamento, não há recursos expressivos do governo federal para dispositivos, o que seria o ideal, é fundamental que o MEC mantenha sempre essas atas de preço disponíveis para os entes subnacionais, que estão passando a ter mais recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) nos últimos anos.”
No ano passado, o país proibiu a utilização dos celulares em sala de aula. No entanto, há uma série de competências digitais que os alunos precisam aprender no mundo contemporâneo. Por isso, outra frente importante que se apresenta ao país é a intensificação na formação dos professores para trabalhar com os conteúdos digitais. Agora que o wi-fi está chegando nas escolas, é preciso, dizem os especialistas, que os docentes saibam usar adequadamente em sala.
Currículo para o digital
Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Computação, um documento que reúne uma série de habilidades que alunos da educação infantil ao ensino médio devem aprender na área a cada ano de ensino, são três eixos de conteúdos: cultura digital (uso responsável e ético das tecnologias e a segurança de dados); mundo digital (funcionamento da internet, protocolos de comunicação, como funcionam um hardware e um software); e pensamento computacional (decomposição, que significa dividir um problema complexo em partes menores; abstração, que pode ser relacionada com as linguagens; e reconhecimento de padrões e algoritmos).
Em 2024, o MEC lançou uma ferramenta para que os professores façam um autodiagnóstico de saberes digitais. Até abril deste ano, quase 130 mil docentes já utilizaram a plataforma. De acordo com a nota técnica da Coalizão Tec Educação, um número relevante de professores das redes estaduais de São Paulo, Alagoas, Ceará e Paraná já fizeram o teste e pouco mais da metade apresentaram “competências digitais apropriadas”.
“Não fazia sentido fazer a formação dos professores antes das escolas estarem providas de infraestrutura para isso. Agora é buscar um trabalho em escala para formação de competências digitais para os professores poderem lidar com todas essas oportunidades de aprendizagem por meio digital ou essas tensões que envolvem a tecnologia, como o cyberbullying. Agora, grande parte das redes do Brasil já está em condições de dar esse passo”, diz Sant’Anna.
Em nota, o MEC afirmou que “tem promovido avanços significativos na infraestrutura digital das escolas públicas brasileiras” e que o objetivo é servir aos propósitos pedagógicos das escolas. Desde 2023, segundo a pasta, foram conectadas 100 mil escolas, com mais de 24 milhões de estudantes matriculados. Sobre os dispositivos, a pasta diz que, desde 2023, foram destinados R$ 1,5 bilhão na compra ou aluguel de equipamentos em programas de financiamento. A pasta também destacou o apoio por meio da disponibilização de atas nacionais de registro de preços pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). As informações são do jornal O Globo.
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