Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020

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Mundo Agentes norte-americanos prenderam 1.100 pessoas de países da África que tentavam cruzar a fronteira ilegalmente

Imigrantes de Burkina Faso aguardam no México decisão sobre pedido de visto aos EUA. (Foto: Reprodução)

Os africanos são a mais recente leva de imigrantes que chegam a Tijuana para pedir asilo no posto de entrada de San Ysidro, onde um escritório do governo americano processa os pedidos de pessoas que querem viver nos Estados Unidos. Agentes americanos da patrulha fronteiriça em Del Rio, no Texas, já prenderam desde o dia 30 de maio mais de 1.100 pessoas de países da África que tentavam cruzar a fronteira de maneira ilegal, e o chefe do setor, Raul Ortiz, afirma que o número continua a crescer.

“No começo não era fácil. Eu dizia: “ S’il vous plait ”, as pessoas não compreendiam”, conta a mãe, Céline*, ao relatar a viagem do seu país de origem até Tijuana.

Ela diz que um grupo de camaroneses, com quem conseguiu se comunicar porque fala um pouco de inglês, lhe deu de comer depois de 15 dias de fome no Panamá e explicou que, na América Latina quase toda, se fala espanhol, “menos no Brasil”.

“Foi aí que entendi que eu não devia mais falar francês. Ensinei para minha filha que, se ela quisesse algo, devia dizer please.”

Anaïs, de 5 anos, e a mãe, de 45, deixaram o país do Oeste africano, assolado pela violência do terrorismo , no dia 21 de março. Só no dia 13 de julho chegaram a Tijuana, fugindo do conflito que, segundo ela, fez com que tiroteios nas ruas se tornassem comuns, atingindo a coxa de seu marido em 2017, e também levando a incêndios nas principais cidades, entre eles o que atingiu sua casa. Dados sobre Burkina Faso do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) mostram que 115 mil pessoas já deixaram suas casas por causa do aumento da insegurança e da violência.

“Todos os dias se mata no meu país. Todo dia”, diz. “Tudo foi reduzido a cinzas. Nós não estamos seguros.”

Céline tem diploma universitário na área de recursos humanos. Era ela quem sustentava a família, trabalhando como despachante aduaneira em Burkina, mas, depois do incêndio, a família perdeu tudo.

Após uma viagem de avião com escala no Brasil, mãe e filha pousaram no Equador. A maioria dos imigrantes africanos escolhe o país sul-americano como destino por ser menos exigente para concessão de vistos — antes de sair de Burkina, Céline tentou duas vezes tirar o visto para os Estados Unidos, mas ele foi negado. De lá, pegaram um ônibus para a Colômbia que as deixou no Panamá.

Em solo panamenho, o maior desafio: 21 dias atravessando a pé a região de Darién, área de selva entre a América do Sul e a América Central por onde passam os imigrantes africanos que tentam chegar aos Estados Unidos.

“Nós caminhamos muito!”, conta Anaïs, que diz sentir saudades de andar de moto, como fazia no país natal.

Ao lado, a mãe conta:

“Tem gente que faz o percurso em uma semana, ou menos, três dias, mas eu não consigo andar assim. Eu caminhei no meu ritmo. Era complicado, na floresta, caminhar como os outros.”

Na selva, as duas dormiram no chão, debaixo da chuva que caía todas as noites, sem barraca, “ sous les belles étoiles” (sob as belas estrelas), diz a mãe, que improvisou uma cobertura para a filha com um pedaço de plástico deixado por outros migrantes pelo caminho. Ela conta a história mostrando o pé contaminado por um fungo contraído durante a travessia. Ela não sabe se a causa foi a água do rio – que atravessou a nado, segurando a menina pelo punho –, ou o cobertor sujo na prisão em Tapachula, Sul do México.

É que depois das três semanas na floresta, quando teve todos os seus pertences roubados – comida, barraca, dinheiro, celular e fotos de lembranças de Burkina – Céline atravessou de ônibus Costa Rica, Nicarágua, Honduras e Guatemala até chegar em Tapachula, no México, onde ficou detida por três dias. Ligou para casa para contar que estava bem, que havia conseguido atravessar a floresta.

Foi quando soube que seu pai havia levado uma paulada nas costas na cidade de Yirgou, em Burkina Faso, e estava paralisado. O golpe atingira sua coluna vertebral. Ele ainda conseguiu enviar dinheiro para que a filha seguisse a viagem. Poucos dias depois, morreu. Não de pressão alta ou diabetes, doenças das quais sofria havia anos, mas em decorrência do terrorismo que se espalha do Mali para os países vizinhos. Depois da notícia, Céline ainda seguiu viagem de ônibus: mais três dias até Tijuana.

“Quando chegamos aqui, já não tínhamos mais nada. Tudo que nós tínhamos antes acabou.”

No último dia 16 de julho, entrou em vigor uma lei do governo de Donald Trump que estabelece que só poderão pedir asilo nos Estados Unidos pessoas que não tenham passado por nenhum outro país antes de chegar aqui. Ou seja, só poderiam pedir asilo migrantes mexicanos. O governo entende que todos os outros deveriam fazer o pedido no primeiro país em que ingressaram depois de deixar sua terra natal. Nesta semana, um juiz federal da Califórnia suspendeu a aplicação da lei.

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