Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 15 de fevereiro de 2024
A Polícia Federal obteve um áudio no celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, indicando que empresários se reuniram com o Jair Bolsonaro para defender uma “posição mais radical” em relação ao resultado das eleições. Em 7 novembro de 2022, data do encontro, o então presidente havia perdido há poucos dias para Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições.
De acordo com a PF, a mensagem de voz de Cid foi enviada ao então comandante do Exército, general Freire Gomes. Na mensagem, o ex-ajudante de ordens comenta numa “visita dos empresários Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa), Afrânio Barreira (Coco Bambu) e, possivelmente, Sebastião Bomfim (Centauro)”. Ainda segundo a PF, Cid relata que “os empresários tentaram pressionar Jair Bolsonaro para que o Ministério da Defesa fizesse um relatório mais duro, contundente, com o objetivo de ‘virar o jogo’, possivelmente se referindo ao resultado das eleições presidenciais”.
Luciano Hang e Meyer Nigri negam ter pressionado Bolsonaro a tomar qualquer medida antidemocrática. Barreira afirmou que estava em Londres na data da suposta reunião e também negou envolvimento. Conheça os empresários.
– Luciano Hang: Apoiador declarado de Bolsonaro desde 2018, Luciano Hang é um dos fundadores da Havan, rede de lojas de departamento. De acordo com a Forbes 2023, o empresário viu sua fortuna cair de US$ 4,8 bilhões para US$ 3,2 bilhões, caindo da 586ª para a 905ª posição na lista de pessoas mais ricas do planeta.
Em 2022, o empresário ganhou repercussão nacional ao prestar depoimento na CPI da Covid. No final do relatório, ele foi um dos 68 indiciados entre pessoas físicas e empresas.
Em janeiro deste ano, Hang e a rede de lojas foram condenadas a pagar mais de R$ 85 milhões por intimidar os empregados a votarem em Bolsonaro na eleição de 2018.
Após os ataques golpistas do 8 de janeiro às sedes dos Três Poderes, em Brasília, Hang divulgou uma nota afirmando que “a democracia não combina com atos de vandalismo e sim com diálogo, jamais com violência”. Ele também afirmou ser preciso respeitar as leis e as instituições, classificando como lamentável ver patrimônios públicos serem depredados.
– Meyer Nigri: Engenheiro, investidor e influente em diferentes meios, Meyer Nigri foi um dos conselheiros informais do ex-mandatário enquanto ele ocupava a Presidência. Neto de libaneses e filho de brasileiros, o empresário é formado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP). Além de fundador e ex-presidente da Tecnisa, empresa que atua no mercado imobiliário brasileiro, ele também é dono de uma confraria de vinhos e investe em um projeto com start-ups ligadas a campanhas de marketing.
Na campanha de Bolsonaro em 2018, Nigri abriu seu apartamento em São Paulo para apresentar o candidato e permitir que ele falasse de seu projeto de governo à elite paulistana. Frequentador de uma sinagoga ortodoxa e considerado filantropo da comunidade judaica de São Paulo, o empresário teve influência direta na intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. O fato acabou não se concretizando.
Durante o mandato do ex-presidente, Nigri serviu como consultor de Bolsonaro para temas que iam de política externa a questões empresariais. Ele também influenciou diretamente em indicações do alto escalão do governo. O dono da construtora tem digitais na escolha do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e do ex-ministro da Saúde Nelson Teich. O executivo também fortaleceu a escolha de Fábio Wajngarten para chefiar a Secretaria Especial de Comunicação da Presidência e de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República (PGR).
– Afrânio Barreira: Dono da rede de restaurantes Coco Bambu, famosa pelos pratos com frutos do mar, Afrânio Barreira é natural de Fortaleza (CE), e empresário do ramo gastronômico desde 1989, quando inaugurou o Dom Pastel na capital cearense. À frente do grupo Coco Bambu, faturou mais de R$ 1 bilhão em 2021.
Declaradamente bolsonarista, ele se manteve aliado ao então presidente durante toda a pandemia quando criticou o isolamento social e apoiou o tratamento precoce, alinhado ao uso da cloroquina – sem eficácia comprovada.
Em maio de 2022, em entrevista ao canal Em Cima do Muro, do Youtube, o candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT) o chamou de “vagabundo” e “sonegador” de impostos”.
– Sebastião Bomfim: O empresário mineiro é dono da rede de artigos esportivos Centauro e um dos bilionários brasileiros. De acordo com o ranking da Forbes de 2022, Bomfim tem uma fortuna de R$ 2,3 bilhões. A Centauro é parte do Grupo SBF, responsável pela Fisia (Nike do Brasil), NWB, FitDance, X3M e OneFan. No ranking da publicação, ele era o 149º mais rico do mundo.
Assim como os outros três nomes citados pela PF, Bomfim é apoiador de Bolsonaro desde 2018. Naquele ano, ele chegou a oferecer um jatinho para o então candidato à Presidência se deslocar durante a campanha.
“Eu estava entre Bolsonaro e Alvaro Dias. E já tinha escolhido votar no Bolsonaro. Saí da reunião com a convicção de que havia feito a escolha certa. Na minha lógica, ele é o que o país precisa”, declarou Bomfim após conhecer pessoalmente o então candidato, após um café da manhã organizado na casa de Fabio Wajngarten. As informações são do jornal O Globo.
Em nota enviada ao jornal O Sul, o empresário Sebastião Bomfim afirma “que não participou da reunião citada e que jamais defendeu iniciativas para reverter o resultado das eleições ou atentar contra a ordem e as instituições democráticas.”
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