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Brasil Alunos repetem de ano mais de uma vez na maioria dos municípios do País

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Os 26 Estados e o Distrito Federal já fizeram a adesão à iniciativa de construção coletiva. (Foto: Banco de Dados)

Em mais de 70% das cidades brasileiras, no mínimo um em cada quatro alunos cursa o 1.º ano do ensino médio com muito atraso. Eles começam essa etapa com 17 anos em vez de 15, a idade correta. Isso acontece basicamente porque os jovens repetiram de ano pelo menos duas vezes ao longo da vida escolar. Os dados mostram também que apenas 1,4% dos municípios do País tem 90% das crianças na idade certa em todos os anos da educação fundamental e média.

O resultado vai contra o senso comum de que não se reprova mais nas escolas públicas brasileiras. Especialistas em educação são contrários à repetência porque sustentam que ela não melhora a aprendizagem. Além disso, afirmam, prejudica a autoestima do aluno e é uma das principais causas de abandono da escola. O ensino médio brasileiro tem evasão considerada elevada, em torno de 12%.

O estudo inédito foi feito com base no Censo Escolar 2016 pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) e pelo QEdu, dois institutos que pesquisam e divulgam dados educacionais. Foi tabulada a chamada distorção idade/série de todos os anos do ensino fundamental e médio – o cálculo inclui apenas alunos com dois anos ou mais de atraso. A série em que há mais municípios com grande diferença de idade é o 1.º ano do médio e, em seguida, o 6.º ano.

“Isso é reflexo de um sistema que não consegue garantir a qualidade da aprendizagem. A reprovação precisa ser uma exceção e não uma estratégia pedagógica”, disse o diretor do Iede, Ernesto Faria. Para ele, há uma cultura da repetência no País que está ligada à relação conflituosa entre professor e aluno.

“Alguns professores alegam que, ao ameaçar um aluno de reprovação, ele estuda. Se isso funcionasse, estaria todo mundo bem, com ótima aprendizagem”, afirmou o professor Ocimar Alavarse. Resultados de avaliações nacionais e internacionais mostram que alunos reprovados têm desempenho inferior aos demais. Dados do Pisa, o maior exame de estudantes do mundo, indicam uma diferença de mais de 70 pontos entre os brasileiros que nunca repetiram de ano e os que foram retidos. Isso significa dois anos a mais de escolaridade. A tendência se repete em todos os países participantes do Pisa.

A educadora Márcia Jacomini, que pesquisa reprovação, disse que não vê “um só aspecto positivo” na repetência. “Ela leva à separação do grupo da classe, interfere na autoestima, tem custo alto e causa evasão.” Especialistas alertam que, se há repetência, as escolas precisam ter projetos para lidar com os reprovados. “Não se pode tratá-los como se tivessem começando pela primeira vez aquele ano”, afirmou Alavarse.

Ciclos

Os dados da pesquisa mostram que há Estados em que 100% dos municípios têm graves problemas de distorção idade/série no ensino médio, como Pará e Distrito Federal. Procurados, ambos os governos informaram que têm medidas para reduzir os índices, como parcerias e implementação de ciclos, quando a repetência acontece só em alguns anos.

Professores que atuam nas escolas reclamam de salas cheias, dificuldade em se dedicar aos alunos com problemas de aprendizagem e pouca ajuda dos pais. “Depois do 3.º ano, os pais desistem de ir a reuniões, não acompanham. Aí a criança chega ao 5.º ano sem saber ler e não temos mais o que fazer”, disse a professora Nathália, que preferiu não ter seu sobrenome publicado. “Acho que tem de repetir em todas as séries. Se você joga para frente, ele não vai acompanhar e vai se frustrar.”

Educadores lembram que as escolas precisam fazer intervenções ao longo do ano, com acompanhamento do aluno e reforço, para verificar se ele está aprendendo. “O desafio é construir um sistema de ensino que prescinda da reprovação.”

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