Segunda-feira, 09 de março de 2026
Por Márcio Coimbra | 6 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A política externa brasileira atravessa hoje uma perigosa indefinição ética. Ao buscar um estreitamento de laços com a Rússia em meio à invasão da Ucrânia, o Brasil não apenas desafia o consenso das democracias ocidentais, mas flerta com a erosão de sua própria identidade. O regime de Moscou, uma autocracia que cerceia a liberdade e persegue opositores, utiliza a força militar como ferramenta sistemática de expansão. Para um país que se orgulha de suas instituições, o silêncio – ou a cordialidade excessiva – configura uma dissonância cognitiva diplomática que compromete nossa credibilidade junto a parceiros que compartilham de nossa arquitetura de valores.
Essa aproximação torna-se ainda mais incompreensível quando se nota que o Brasil negligencia evidências graves de que sua própria soberania tem sido instrumentalizada pelo Kremlin. A descoberta de uma rede de espiões russos operando em solo nacional com identidades fraudulentas é um alerta que Brasília parece ignorar. Agentes como Sergey Cherkasov (Victor Muller Ferreira), Mikhail Mikushin (José Assis Giammaria) e Artem Shmyrev (Gerhard Daniel Campos) revelam que Moscou enxerga o Brasil não como um parceiro de igual estatura, mas como uma “fábrica de identidades” para suas operações globais de infiltração.
Essa falta de respeito manifesta-se também na opacidade das movimentações de aeronaves estatais russas em aeroportos nacionais. Relatos sobre voos suspeitos em Brasília entre 2025 e 2026, envolvendo modelos como o Ilyushin Il-96 e o Tupolev Tu-204, levantam questionamentos profundos. Tais aeronaves realizam rotas complexas para evitar o espaço aéreo europeu, fazendo escalas na África e no Cáucaso antes de pousar em Brasília e rumar para Havana e Caracas. A ausência de transparência sobre essas cargas sugere uma “diplomacia das sombras” que fragiliza nossa imagem perante o mundo civilizado.
Diante disso, causa perplexidade que o governo estenda o tapete vermelho para o primeiro-ministro Mikhail Mishustin. Tal recepção sugere que o compromisso brasileiro com o Direito Internacional é seletivo. O argumento da necessidade comercial não resiste aos números: as exportações para a Rússia representam ínfimos 0,6% do total nacional. Em contrapartida, a União Europeia, que lidera as sanções contra Putin, é destino de 15% de nossas vendas. Trocar a possibilidade de acesso preferencial a um mercado de 450 milhões de consumidores pelo fornecimento de fertilizantes russos – insumo que poderia ser diversificado com Canadá ou Marrocos – é um isolacionismo ideológico que nos afasta das cadeias de valor mais sofisticadas do Ocidente.
Há ainda a dimensão humanitária: o sentimento de traição da comunidade ucraniana no Brasil. Com 600 mil descendentes, majoritariamente no Paraná, essa diáspora vê na postura de Brasília uma ofensa ao sofrimento de seus familiares. É doloroso ver o governo confraternizar com um regime cujo líder é alvo de mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra.
Ao incentivar laços com Moscou, o Brasil ignora os riscos reais de retaliação pelas nações livres. O custo Rússia é demasiadamente alto, logo é hora de decidir: ou o Brasil retoma sua liderança moral na ordem global ou mergulha em um isolamento histórico e vergonhoso.

* Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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