Sexta-feira, 29 de maio de 2026

Porto Alegre

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Notícias Ansiedade e depressão duplicaram em um mês de quarentena no Brasil

Compartilhe esta notícia:

Países das Américas relataram aumento preocupante no número de novos casos de problemas psicológicos. (Foto: Reprodução)

Uma pesquisa que submeteu 1.460 brasileiros a uma triagem psicológica online sugere que a incidência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse pode ter dobrado da primeira para a quarta semana de quarentena pela Covid-19.

Os dados do trabalho foram coletados pelo psicólogo Alberto Filgueiras, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), para dois estudos com 20 dias de intervalo entre si. Mesmo não tendo o objetivo direto de medir incidência – e sim identificar grupos de risco – a pesquisa sugere um agravamento preocupante.

“Enquanto no primeiro estudo a prevalência girava em torno de 4% a 5% para sintomas de depressão e ansiedade, no segundo estudo cresceu para algo de 7% a 8%”, disse o psicólogo.

Uma versão preliminar da pesquisa, ainda sem revisão independente, já mostra o recorte da população que está mais vulnerável.

Os três grupos destacados por Filgueiras e por seu coautor, Matthew Stults-Kolehmainen, são as pessoas que vivem com idosos durante a quarentena, os portadores de doenças que configuram fatores de risco para a Covid-19 e os trabalhadores que não podem ficar em confinamento.

A pesquisa também aponta um maior risco para subgrupos como mulheres e pessoas de menor escolaridade, que tradicionalmente são mais pressionados e em situação de fragilidade.

“O que as evidências do nosso estudo sugerem é que essas pessoas precisam de um cuidado urgente, para ontem. Não adianta esperar a quarentena passar para depois tentar apagar o fogo”, diz Filgueiras.

O estudo do psicólogo da Uerj segue a trilha de outros trabalhos que vêm sendo publicados ao menos desde fevereiro, mostrando o impacto mental da pandemia de Covid-19 em outros países.

No maior deles, feito com 53 mil respondentes na China, 35% das pessoas declararam experimentar estresse psicológico moderado e outras 5% relataram sintomas severos de problemas mentais.

Índice de estresse no Brasil é pior que na China e Irã

Uma revisão de trabalhos liderada pela psicóloga Samantha Brooks, do King’s College de Londres, lista os efeitos mais comuns relatados por pessoas em situações de quarentena antes da emergência do novo coronavírus. O sentimentos relatados já são familiares para muitos brasileiros.

“A maior parte dos estudos relata efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. Os fatores estressores incluem a grande duração da quarentena, medo de infecção, frustração, tédio, falta de suprimentos, informação inadequada, perda financeira e estigma”, relatam os psicólogos.

Stephen Zhang, psicólogo da Universidade de Adelaide, na Austrália, está coletando dados sobre prevalência de problemas mentais em alguns países afetados pelo novo coronavírus, incluindo China, Irã e Brasil. Numa sondagem feita com 638 pacientes brasileiros, encontrou situação preocupante.

“No Brasil, 52% da amostragem de adultos experimentou estresse leve ou moderado e 18% sofriam de estresse severo”, escreveu o pesquisador num estudo preliminar divulgado no portal MedrXiv. “O índice de estresse ligado ao trauma da Covid-19 no Brasil é pior do que o da China e o do Irã.”

Zhang e colegas avaliaram no estudo também se a distância à qual os participantes estavam da cidade de São Paulo, epicentro da Covid-19, no Brasil, influenciava o grau de estresse.

“No Brasil, observamos um efeito do tipo ‘olho do tufão’ – os problemas mentais aumentavam com a distância do epicentro, como em um tufão, onde o efeito é maior na periferia do que no centro”, escreveu o pesquisador.

Esse efeito foi maior entre adultos mais velhos e entre pessoas que tiveram que se ausentar mais do trabalho, possivelmente se expondo mais a notícias preocupantes.

Temores em conflito

Há muitos fatores influenciando o mal-estar psicológico dos brasileiros agora. Segundo Filgueiras, no caso específico da Covid-19 no Brasil, a situação conflitante entre aderir ao confinamento para frear a epidemia e a pressão por renda e produtividade é especialmente perniciosa.

“As pessoas percebem que existe impacto na economia e na capacidade delas de subsistir, mas ao mesmo tempo sabem que não podem se expor ao vírus. É mesmo um conflito entre o medo de morrer e a pressão por sobreviver”,  diz Filgueiras.

A apreensão é maior, claro, à medida que o impacto da Covid-19 se faz ver dentro do círculo social das pessoas.

A insônia de Daniele Rangel da Silveira, por exemplo, piorou nos últimos dias. A jovem de 25 anos moradora da Rocinha, maior favela do Rio, não conhece nenhum caso curado de Covid-19.

Dois amigos dos pais morreram. Outros conhecidos com a doença estão internados. Ela tem bronquite, e o marido, epilepsia. Ambos não podem deixar de trabalhar numa farmácia da comunidade.

“A minha ansiedade não me deixa dormir. Fico perambulando a noite toda pela casa. E piorou muito durante a quarentena”, explica Daniele, que trabalha com todos os equipamentos de proteção necessários. “Mesmo assim, tenho muito medo de pegar a doença.”

Moradora de Realengo, Carla Moraes, de 49 anos, sofre com ansiedade há dez anos. A depressão ela já havia superado, mas a quarentena tem feito o problema voltar.

Ela vive com a mãe, de 89 anos, e o filho, de 19. O jovem, por não poder parar de trabalhar, foi morar com o pai.

Para piorar, ela ainda se recupera de um acidente doméstico de dezembro que a deixou com a tíbia e a fíbula, dois importantes ossos da perna, quebrados.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Notícias

Deixe seu comentário

Os comentários estão desativados.

A participação das mulheres na força de trabalho atingiu um índice recorde no Rio Grande do Sul
O coronavírus pode permanecer no ar em lugares sem ventilação
Pode te interessar