Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 24 de fevereiro de 2018
Nos 48 dias em que ficou com a vida em suspenso esperando a Justiça decidir se poderia assumir o Ministério do Trabalho, a deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) concluiu que foi vítima de uma “infeliz coincidência” que juntou três elementos: o ódio da esquerda ao seu pai, Roberto Jefferson, por ter denunciado o escândalo do mensalão; um “ativismo judicial” que tenta demonizar a classe política; e a falta de assunto que permeava a política nos primeiros dias de janeiro. Na primeira entrevista concedida após desistir do cargo de ministra, ela não faz autocrítica sobre os inúmeros percalços que detonaram o projeto que, segundo Jefferson, representaria “um resgate” da família.
“Bombardeio faz parte do momento político que estamos vivendo no Brasil, em que a esquerda perdeu o controle do país. Eles perderam o poder, alguns foram presos, e todo aquele ódio veio à flor da pele. Isso acabou refletindo em mim “, avaliou ao jornal O Globo, complementando: “Acabou que todos os canhões se voltaram para mim. E temos aí um ativismo jurídico que está sendo muito nocivo para a política nacional. A política está sendo demonizada.”
Apesar da falta de mea-culpa, Cristiane cita o ex-premier britânico Winston Churchill ao reconhecer que o fim da história foi trágico, mas necessário. Ela contou que “quase perdeu todos os cabelos” durante a crise. Cristiane diz ser inocente de todas as acusações reveladas no período em que ficou com a indicação pendente.
“A pior coisa é quando a vida da gente fica em suspenso, quando a gente não sabe como vai ser o dia seguinte. Esse dia a dia estava realmente me consumindo. Tem uma frase do Churchill que diz que é melhor um fim trágico do que uma tragédia sem fim.”
Novela
A novela envolvendo Cristiane começou um dia depois de seu nome ser aceito pelo presidente Michel Temer como substituta de Ronaldo Nogueira, que resolvera abandonar o governo. Naquele 4 de janeiro, a TV Globo revelou que a escolhida para assumir o Ministério do Trabalho fora condenada a pagar uma dívida trabalhista após uma queixa de um ex-motorista que alegava ter trabalhado sem carteira assinada. Dois dias depois, outra revelação: na verdade, a indicada tinha duas dívidas trabalhistas com dois ex-motoristas, e um dos pagamentos para saldar o débito saiu da conta de uma assessora de Cristiane. Para piorar, um juiz da 4ª Vara Federal de Niterói concedeu liminar para impedir a sua posse.
O caso virou então um cabo de guerra entre o governo e o Judiciário, com o Palácio do Planalto de um lado, querendo defender o direito constitucional do presidente de escolher quem bem queira para o ministério, e a Justiça de outro, prorrogando o capítulo final. O episódio derradeiro foi a decisão da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, suspendendo provisoriamente a posse até que o plenário da corte decidisse afinal. Em meio a isso tudo, Cristiane atingiu o “pico do estresse”, e gravou um vídeo em que aparece numa lancha cercada por amigos dizendo não entender o “que pode passar na cabeça das pessoas que entram contra a gente em ações trabalhistas”.
A série de tropeços seguiu. E já no início deste mês veio a revelação de que Cristiane era investigada por suposto pagamento, via assessores, a traficantes para fazer campanha na comunidade de Cavalcante, na zona norte do Rio.
“Não lido com traficante. Já chegou no meu ouvido uma vez: se quiser trabalhar nessa área, vai ter que pagar. Não aceito, não faço esse tipo de acordo. Sempre ganhei eleição e nunca precisei fazer”, defende-se.
E como pá de cal apareceu um áudio gravado por um ex-assessor. Numa reunião de pré-campanha com funcionários da prefeitura do Rio, Cristiane pede que votem nela para que consigam manter seus empregos. Mas disse que não obrigou ninguém a nada:
“Não é da minha natureza, nunca obrigaria uma pessoa que trabalha para mim a me ajudar. Eu falei o óbvio: se eu ganhar, consigo manter o emprego de vocês, porque são cargos de confiança.”
Cristiane rebate cada ataque, explicando que já pagou as dívidas trabalhistas. A assessora, afirma, era sua preposta para ir às audiências, e, “nervosa” no lugar de informar a conta da deputada, acabou dando sua conta pessoal na hora de firmar o acordo com o reclamante.
“Foi um erro. Ela ficou nervosa porque o juiz falou que se houvesse algum atraso, haveria cobrança de juros e multa”, disse.
De todos os percalços, o que mais a machucou foi o vazamento do vídeo. “Nós estávamos passeando de barco, eram empresários com as suas esposas e crianças. Eles falaram: “Nós queremos nos solidarizar com você”. Falei que se vazasse ia ser complicado. Mas o amigo que gravou passou para um outro, que vazou publicamente. Foi um equívoco”, lamentou.
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