Domingo, 04 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 9 de maio de 2021
Após o YouTube (YT) revisar suas regras sobre conteúdos que defendam o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid, vídeos com recomendações da cloroquina, ivermectina ou que pregam “tratamento precoce” contra o vírus seguem disponíveis na plataforma. Levantamento feito por um jornal, em parceria com a empresa de análise de dados Novelo Data, identificou ao menos 202 postagens com desinformação sobre o tema no ar. Ao todo, elas somam mais de 20 milhões de visualizações e foram publicadas por canais de políticos, órgãos governamentais, blogueiros e até por médicos.
Em abril, o YT anunciou uma atualização de suas regras e passou a remover vídeos com recomendações da cloroquina e da ivermectina para o tratamento da doença, bem como alegações de que há um método de prevenção garantido contra o novo coronavírus. Segundo o YT, a política é aplicada para vídeos que já estavam no ar, de modo retroativo.
Após a mudança de diretriz, a plataforma removeu cinco vídeos do canal do presidente, mas o perfil não só tem outras publicações antigas no ar, em que Bolsonaro prega uso dos medicamentos, como ele, após as remoções, postou um novo vídeo no YT na mesma linha.
As constantes declarações do presidente em defesa de medicamentos sem eficácia contra o novo coronavírus são apuradas pela CPI da Covid no Senado. No caso do canal de Bolsonaro, foram identificados outros dois vídeos que ferem as diretrizes do YouTube. Em um deles, publicado em setembro do ano passado, o médico Henrique Prata, diretor Hospital do Amor de Barretos, recomenda a cloroquina para o tratar a covid. Procurado, o Planalto não se manifestou sobre o assunto.
A deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP) é outro nome da política que compartilha vídeo propagando remédios como a cloroquina e a ivermectina — o mesmo é feito por seus colegas de partido Carlos Jordy (RJ) e Coronel Tadeu (SP), além do senador Flavio Bolsonaro, filho do presidente. Procurada, Zambelli disse que compartilha do mesmo pensamento do presidente, que defende o uso da cloroquina e da ivermectina. Coronel Tadeu e Carlos Jordy não se manifestaram.
O canal do Ministério da Saúde (MS), por sua vez, tem ao menos dois vídeos no ar com a defesa de que o “tratamento precoce” evita o agravamento da covid. Em um deles, Eduardo Pazuello afirma que o brasileiro que for diagnosticado “receba a medicação” e que o tratamento evita o agravamento, como a necessidade de UTI. O vídeo da pasta que recomenda o “tratamento precoce” também foi compartilhado pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal.
Em nota, a pasta informou que o conteúdo dos vídeos orienta e recomenda que, aos primeiros sinais da covid, os pacientes procurem atendimento médico. “A medida é fundamental para evitar casos graves da doença. Em relação ao uso de medicamentos, cabe ao profissional de saúde receitar o tratamento adequado a cada paciente”, complementou. Em diversos momentos, o MS, recomendou tratamento precoce de pacientes com cloroquina e outros remédios. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que apenas compartilhou o vídeo do ministério e negou que ele faça apologia ao tratamento precoce.
O epidemiologista e professor da UERJ, Guilherme Werneck ressalta que não existem estudos que sustentem o uso de medicamentos como cloroquina ou ivermectina contra a covid, muito menos na fase preventiva. Pelo contrário, os resultados mostram que não são eficazes.
A publicação, de junho de 2020, foi visualizada mais de 214 mil vezes. Já outro post do tipo, um homem que se identifica como médico passa o que seriam dois protocolos para o uso da ivermectina. Em um deles, orienta que remédio sem a eficácia comprovada seja tomado a cada três meses, no outro, a cada trinta dias.
O 2º vídeo, publicado em agosto passado, teve 252 mil visualizações. Em publicações mais recentes, médicos rebatem as notícias que mostram os efeitos colaterais em quem tomou ivermectina para se prevenir a doença. Já foram registrados casos de pessoas que desenvolveram hepatite aguda após o uso excessivo da droga.
O deputado federal Paulo Ganime (RJ), relator da Lei das Fake News, acredita que as plataformas têm o direito de retirar vídeos que sigam suas diretrizes desde que sejam bastante claras.
“Se o conteúdo vai contra às diretrizes de uso da plataforma, eu acho que a plataforma tem o direito de tirar. Se é algo definido como fake news, a plataforma tem o direito de tirar”, afirma o deputado
Em geral, canais com mais de três avisos de descumprimento de regras (strikes) são excluídos pela plataforma. Em caso de atualização de regras, porém, é estabelecido um “período de carência”. Assim, vídeos postados antes da mudança ou até um mês depois da atualização podem ser removidos sem que essa ação gere um strike como penalidade. Com informações do portal O Globo.
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