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Saúde Após fala de Trump: paracetamol é seguro durante a gravidez? Especialistas dizem que é a melhor opção

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Embora alguns estudos tenham apontado possíveis associações, outros não identificaram relação alguma, e nenhum conseguiu demonstrar causa e efeito.

Foto: Pexels
Embora alguns estudos tenham apontado possíveis associações, outros não identificaram relação alguma, e nenhum conseguiu demonstrar causa e efeito. (Foto: Pexels)

Em um evento realizado na Casa Branca no ano passado, marcado por declarações firmes, mas com poucas evidências científicas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e autoridades de saúde de seu governo afirmaram que o uso de Tylenol durante a gravidez poderia levar ao autismo. A afirmação, no entanto, não é comprovada pela ciência.

Em tom exaltado, Trump chegou a aconselhar gestantes a evitarem o medicamento e a “aguentarem” dores e febres, salvo em casos extremos. O presidente relacionou o aumento dos diagnósticos de autismo ao paracetamol, princípio ativo do Tylenol, e afirmou ainda que pais não deveriam administrar o remédio a bebês.

As declarações geraram reação imediata de especialistas em obstetrícia, pediatria e autismo, que demonstraram preocupação com a disseminação de informações sem respaldo científico. Entidades médicas destacam que não há comprovação de relação causal entre o uso de paracetamol na gravidez e o desenvolvimento do transtorno do espectro autista.

Embora alguns estudos tenham apontado possíveis associações, outros não identificaram relação alguma, e nenhum conseguiu demonstrar causa e efeito. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, assim como outras organizações médicas, afirma que o paracetamol é considerado seguro durante a gestação, desde que utilizado com orientação médica.

O que dizem as pesquisas

Um artigo publicado recentemente, baseado na revisão de 46 estudos, encontrou associação entre distúrbios do neurodesenvolvimento e o uso de paracetamol em mais da metade das análises. O próprio autor principal, porém, ressaltou que os dados não comprovam que o medicamento cause esses distúrbios, ponto frequentemente omitido no debate público.

Os estudos são observacionais, ou seja, não houve designação aleatória de gestantes para usar ou não o remédio. Esse modelo está sujeito a fatores de confusão, como diferenças de saúde entre mulheres que utilizaram ou não o paracetamol. Além disso, muitos trabalhos analisaram dados retrospectivos, o que aumenta o risco de vieses.

Um amplo estudo realizado na Suécia, com quase 2,5 milhões de crianças, reforçou essa limitação. Ao comparar irmãos, os pesquisadores não encontraram associação entre o uso de paracetamol durante a gestação e o diagnóstico de autismo.

Contrariando declarações de autoridades do governo americano, a Food and Drug Administration, a Agência Europeia de Medicamentos e a Sociedade de Medicina Materno-Fetal afirmam que as evidências disponíveis são inconclusivas.

“É algo que merece atenção, mas não podemos dizer que seja uma causa do autismo, que é um transtorno complexo e multifatorial”, afirma Zeyan Liew, professor associado de epidemiologia da Universidade Yale.
Uso durante a gravidez

Especialistas alertam que dores e febres não tratadas podem trazer riscos à gestante e ao feto, como parto prematuro e defeitos congênitos. “É preciso comparar os riscos do tratamento com os riscos de não tratar”, explica Judette Louis, presidente do comitê de publicações da Sociedade de Medicina Materno-Fetal.

Segundo ela, o medo de processos judiciais tem levado alguns médicos a reconsiderar a recomendação do paracetamol, o que preocupa a comunidade médica. “Isso é um retrocesso”, avalia.

Para gestantes, o paracetamol não tem substitutos seguros de venda livre. Medicamentos como ibuprofeno e naproxeno devem ser evitados, especialmente após a 20ª semana de gestação, por riscos ao feto.

“O paracetamol não deve ser usado de forma preventiva, mas quando necessário, é considerado seguro”, afirma Steven Fleischman, presidente do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas. “O risco da febre é maior do que qualquer risco conhecido associado ao paracetamol.”

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