Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 5 de maio de 2018
O cenário de forte desvalorização cambial e de alta de juros na Argentina deve reduzir as exportações brasileiras como um todo e afetar principalmente os automóveis. Os veículos, suas partes e acessórios, incluindo tratores e caminhões, representam cerca de metade da pauta de exportação do Brasil aos argentinos.
Alberto Ramos, diretor do departamento de pesquisas econômicas para a América Latina do Goldman Sachs, destaca que a indústria brasileira, principalmente a automotiva, pode sofrer turbulências, caso o cenário na Argentina continue piorando, com a “aguda” depreciação da moeda local e o “choque” da taxa de juros. Para Ramos, esses fatores podem desacelerar o crescimento nesse “mercado-chave para as exportações de manufaturados brasileiros”.
Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, a situação do país vizinho é preocupante. “Comparada com o Brasil, a Argentina está em uma situação bem pior. O pessoal estava eufórico com a Argentina, mas os fundamentos da economia deles são bem piores do que os nossos. O déficit público e o déficit em conta corrente são significativamente maiores.”
Segundo Vale, isso coloca uma pressão na política macroeconômica muito grande. “A inflação está se acelerando neste ano, e já não é uma inflação baixa, acima de 20%. Então, quando se juntam todos esses elementos, há o risco de a Argentina crescer menos e, de fato, ter um efeito sobre as exportações de carros, que cresceram tanto no ano passado.”
O recuo nos embarques para o país vizinho, porém, deve ocorrer de forma simultânea à elevação das importações brasileiras, como resultado da recuperação da economia doméstica, avalia Roberto Cortes, presidente da MAN. Isso fará com que o superávit da balança bilateral do Brasil com os argentinos caia, algo que será bem-vindo pelo governo liderado pelo presidente Mauricio Macri.
No setor automotivo como um todo, avalia Cortes, isso permitirá ao lado brasileiro compensar a partir de agora a redução das importações nos dois anos anteriores.
Para Cortes, porém, a dificuldade argentina é momentânea. “A desvalorização deles é proporcionalmente maior que a dos demais países emergentes. Mas vejo isso como questão pontual.” No setor automotivo, lembra ele, a indústria brasileira reduziu nos últimos dois anos as importações com origem na Argentina por conta da recessão doméstica. Ao mesmo tempo o mercado argentino, então em recuperação, demandou aumento nas exportações brasileiras de veículos.
A combinação potencializou o déficit e também gerou discussão sobre a regra do flex de 1,5 do acordo automotivo, pelo qual a cada US$ 1 importado dos argentinos o Brasil pode exportar até US$ 1,50. A exportação brasileira excedeu o limite em alguns casos e a Argentina chegou a ameaçar com a cobrança de multas.
Com o novo cenário argentino e brasileiro, porém, diz Cortes, essa situação chegará a um equilíbrio natural. “Acredito que a indústria brasileira volte a importar dos argentinos a ponto de compensar o que diminuiu no passado”, diz o presidente da MAN.
Cortes diz que a estimativa é que a venda total de caminhões na Argentina tenha fechado o primeiro trimestre com queda de 20% a 25% em relação a igual período de 2017. Além do efeito da desvalorização cambial e da inflação como redutor do poder de compra na Argentina, diz Cortes, o mercado de caminhões deve sofrer adicionalmente por conta da quebra de safra agrícola resultante da seca.
Para a MAN, diz Cortes, o efeito da dificuldade argentina não deve ser tão grande. Segundo ele, a Argentina é um país importante dentro do processo de internacionalização da empresa, que pretende ganhar mercado no país vizinho. A MAN divulgou recentemente que estudava a viabilidade de ter uma fábrica em território argentino e, segundo o executivo, isso se mantém no radar da empresa
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M Jorge Consultores, diz que o governo de Macri deverá ter mais urgência em reduzir o superávit brasileiro na balança bilateral. O saldo em favor do Brasil cresceu de US$ 2,52 bilhões em 2015 para US$ 4,33 bilhões em 2016 e alcançou US$ 8,18 bilhões no ano passado.
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