Sexta-feira, 02 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 6 de dezembro de 2015
Em uma semana, veio a confirmação da gravidez, cuidadosamente planejada. Na outra, o início de um bombardeio de informações sobre a associação entre zika e microcefalia, uma malformação que até então não fazia parte do rol de preocupações da gestante Katharina Kelecom. Grávida de primeira viagem, ela não esconde a sensação de desamparo, especialmente após o Ministério da Saúde confirmar que o vírus realmente provoca a anomalia congênita, e que o risco maior seria o de uma infecção nos três primeiros meses de gestação.
“Eu tive uma alegria muito grande com a gravidez e, pouco tempo depois, ouvi autoridades do governo recomendando não engravidar! Isso me alarmou e, por mais que tente me informar, continuo cheia de dúvidas. Por que o zika provoca microcefalia? Qual é a ação do vírus? Como isso passa para o feto? Ninguém consegue ainda responder isso”, lamenta ela, que é professora em um colégio onde vários alunos e funcionários já tiveram dengue e, alguns, o próprio zika.
Diante disso, os repelentes viraram assunto rotineiro para as grávidas. Katharina é alérgica, então não pode usar muitos desses produtos. Ela tem comprado alguns nas versões em spray e em creme e, ao chegar em casa, faz pequenos testes para ver se tem alguma reação. “Minha próxima consulta de pré-natal é daqui a 20 dias e espero que minha médica já tenha mais orientações sobre isso”, anseia. Com 27 semanas, Luana Rodrigues não deixa de usar repelente e descreve esses últimos dias como “angustiantes”. “É uma sensação de impotência, porque evitar o mosquito não depende só da gente. E não é uma questão de tomar vacina, porque simplesmente não existe.”
Esforços do governo.
O Ministério da Saúde garante que os esforços para orientar melhor a população não param. Conforme informou o ministro Marcelo Castro, será logo colocado em prática o plano nacional de combate ao mosquito Aedes aegypti. Castro também afirmou que, dos 646 casos suspeitos da malformação em Pernambuco, cerca de 150 estão confirmados. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) lançaram um alerta epidemiológico para que os países membros fiquem vigilantes para detectar e confirmar casos de infecção pelo vírus zika. No comunicado, as organizações destacam a epidemia de microcefalia no Brasil e pedem para que as demais nações reforcem o combate ao mosquito Aedes aegypti.
Ao passo que, em condições normais, grande parte das gestantes aproveita cada segundo do crescimento do bebê, Danívia Vargas, 25, “quer que tudo acabe logo”. Ficou neurótica, como ela mesma definiu, com a possibilidade de ser picada ou pelo Aedes aegypti ou pelo Aedes albopictus – uma variante que também pode causar zika, dengue e chicungunha, mas é menos recorrente. “Além do repelente, vou colocar tela na minha casa. Por enquanto, não abro mais as janelas.”
Danívia participa até de um grupo no WhatsApp que reúne gestantes do Brasil inteiro e cujo assunto principal é, claro, o zika. “Algumas relatam muita dificuldade para comprar repelente porque estão em falta no mercado, e outras, por não terem condições financeiras. Eu já paguei 50 reais em um frasco. A cada hora aparece uma nova dúvida e, sempre que alguém escuta ou lê algo novo, compartilha. As meninas do Norte e do Nordeste estão muito mais preocupadas.”
Dúvidas mais comuns sobre repelentes.
O assunto divide até mesmo dermatologistas: enquanto uns garantem que a substância icaridina é segura, outros afirmam que o melhor é recorrer a outros compostos ou mesmo a produtos naturais. “O melhor para as grávidas é o repelente com IR3535”, recomenda Carlos Milhomens, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, que descarta o uso de repelentes ligados em tomada e aqueles aplicados em tecidos.
Já o professor Murilo Drummond recomenda apenas repelentes naturais para aquelas que estão no primeiro trimestre de gravidez. (AG)
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