Terça-feira, 07 de Julho de 2020

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Brasil As rotas de transporte ameaçam a segurança alimentar mundial

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Relatório alerta sobre impactos das mudanças climáticas sobre portos, estradas e ferrovias. (Foto: Reprodução)

As mudanças climáticas ameaçam a segurança alimentar global não apenas pelos impactos na produção agrícola, mas também pela interrupção das redes de escoamento de grãos, alerta o think tank britânico Chatham House. Em relatório divulgado nesta terça-feira, a organização aponta a existência de 14 pontos de estrangulamento que, sob efeito de eventos climáticos extremos, podem paralisar a exportação de commodities e espalhar a fome por diversos países ao redor do mundo, sobretudo os mais pobres.

“Nós estamos falando sobre uma grande parcela do fornecimento global que pode ser atrasado ou parado por um período significativo de tempo”, alerta Laura Wellesley, uma das autoras do relatório, em entrevista ao The Guardian. “O que preocupa é que, com as mudanças climáticas, nós provavelmente veremos um ou mais desses gargalos interrompidos coincidindo com perdas de safras, e é aí que as coisas começam a ficar sérias.”

O relatório destaca que apenas três cultivos — milho, trigo e arroz — são responsáveis por cerca de 60% do consumo alimentar global de energia, e que a soja é a maior fonte de alimento para a produção animal, respondendo por 65% do fornecimento global de proteína animal. E mais da metade da exportação global dessas quatro culturas é centralizada em portos no Brasil, nos EUA e no Mar Negro.

Além das infraestruturas portuárias e de estradas e rodovias nestas regiões, a Chatham House alerta para algumas rotas marítimas que concentram grande parcela do tráfego desses grãos, como o estreito de Malaca — passagem entre os oceanos Índico e Pacífico — e o canal do Panamá — que liga o Atlântico ao Pacífico —, cada um responsável por mais de 20% do trânsito global de soja.

E esses gargalos já estão sofrendo com eventos climáticos globais. Em 2005, o furacão Katrina interrompeu o tráfego fluvial pelo Rio Mississippi por quase duas semanas, e o tráfego não se recuperou aos níveis máximos até dois meses após o evento. Em 2013, tempestades atingiram a região Sul do Brasil, interrompendo o tráfego em estradas que abastecem os postos. A produção de soja não pôde ser escoada, e cerca de 200 navios ficaram esperando nos portos em média por 39 dias. US$ 2,5 bilhões foram perdidos em atrasos ou cancelamentos de pedidos.

“Se esses dois eventos fossem coincidentes, mais de 50% do fornecimento global de soja seria afetado”, aponta o relatório. “E se eles coincidissem durante a temporada de exportação, seja no Brasil ou nos EUA, o potencial de desabastecimento e aumento dos preços seria significativamente alto.”
Num cenário ainda mais alarmante, problemas nos EUA e no Brasil coincidiriam com as ondas de calor semelhantes com as que afetaram a Rússia no verão de 2010, que gerou perdas de safras.

“Mais de 51% do fornecimento global de soja, 41% do fornecimento de milho e 18% do fornecimento de trigo seriam suspensos ou atrasados”, alerta o think tank.

Infraestrutura no Brasil

O relatório tem um capítulo dedicado exclusivamente ao Brasil. Os pesquisadores destacam que o “avanço espetacular” do País como fornecedor global de soja e milho não foi acompanhado por investimentos em infraestrutura para exportação. “Os portos estão operando perto da capacidade máxima, enquanto o transporte para novos terminais que estão sendo construídos no Norte é dificultado pelas péssimas condições das estradas”.

Juntos, os portos de Santos, Paranaguá, Rio Grande e São Francisco do Sul lidam com um quarto das exportações globais de soja, mas a conexão desses centros às zonas produtoras na região central do País é deficiente. A estimativa é que 70% das rodovias estejam em más condições, sendo que muitos trechos não são pavimentados. (AG)

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