Quinta-feira, 11 de junho de 2026

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Colunistas As ruas falaram

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(Foto: Jackson Ciceri/O Sul)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Era um surpreendente dia de calor. Para mim insuportável. O termômetro passara dos 42 graus, o que transformara a cidade em um estranho forno.

A municipalidade determinara o fechamento do comércio e a suspensão da atividade industrial. Bares e restaurantes continuavam abertos funcionando como oasis, fornecendo bebidas geladas e espalhando ar refrigerado, assoprando ao máximo o que, para sobreviventes “asilados” era o mínimo insuficiente.

A cidade era Atenas, de quem nunca esperaria recepção tão calorosa. Estava hospedado num hotel que vizinhava com o Partenon. Com toda a canicola, que agredia com a arma da prostração térmica, me sentia protagonizando a História. Me haviam contado, em idos longínquos, passados e sobrepassados, na infância remota, em escola do tapapó branco, pela voz da professora dedicada, que a Grécia era protagonista-matriz da civilização clássica.

Lá, segundo os livros didáticos de 50 anos passados, fora onde se sucederam na arte-ciência do pensar, entre outros, Sócrates, Platão e Aristóteles, que sabiam tudo do quanto se sabia mas, modestos e/ou realistas, deixaram um recado para os que os sucederam, sintetizado na confissão de Sócrates: “eu sei que nada sei”.

Estando eu na Grécia, cercado pela História e num “logo ali” da Ágora, isto é, nada mais, nada menos, do que a praça onde se teria implantado o diálogo entre dirigentes e dirigidos, entre governantes e o povo. Lá, se reunia a população para debater e decidir, num admirável mano a mano, sem hierarquias. Lá – assim me contaram – obedecendo a liderança participativa de Péricles e – penso eu – a admirada gestão de Solon, se exercitava a democracia, antes de a Democracia formal ter nascido (ou, pelo menos, ter sido registrada em cartório, dos tempos idos com fé publica e testemunhas).

Isso foi, o que de boa fé, me contaram, no final dos idos de quarenta. Quando passei a me entusiasmar com Toynbee – tão filósofo quanto historiador – e sua fundamentada crítica da História “cor de rosa”, convenci-me de que não era da História que, até então, estava tratando, mas de histórias.

A democracia direta, a decisão compartilhada, o dirigente que se ombreia, ali, no cenário que, ora delineado, me permitia desenhar quadros fugazes, inspirados no que eu não vira mas pressupunha, a partir da magia do criado e a recordação do meramente aspirado. Tudo isso me permitia, ainda que atrasado em muitas centenas de anos, deleitar-me com a vista do sisudo Partenon.  Aliás, muito mais com o que se acreditava que ele fora do que com a paisagem árida que ele era.

Na verdade, a democracia da Ágora não era o que me haviam dito. Só participavam das sessões em praça pública os atenienses que provassem nascimento e moradia na cidade-estado, além de um valor patrimonial próprio que os colocassem acima dos “periécos”.

Assim, na prática, do processo participativo, na sua própria gênese, somente trinta por cento da população estava habilitada a ser partícipe desse exercício de cidadania. Tratava-se de um direito reconhecido para os selecionados. Poderia sintetizar-se: entre os atenienses credenciados, o “voto” não era obrigatório.

De qualquer maneira, estava inspirado o romântico e libertário, combatente do bom combate anti-escravagista Castro Alves, ao afirmar que “a praça é do povo como o céu é do condor”. Rememorando seu verso – paixão e luta – a gente se sente fortalecido quando, no domingo, o povo – não se sabe quantos milhões, mas não importa – sem submissão, nem imposição, cantou com fervor o Hino Nacional e vestido com o amarelo-ouro cor da bandeira, cobrou de quem tem culpa e deu força a quem – pela coragem e competência – merece solidariedade.

De crianças de 4 a 5 anos, a aposentados de 70; de casais de mãos dadas ao solteirão também em busca de sua cinderela rebelde; de empresários que não sabem se temem mais os juros escorchantes ou a cruel recessão; de recém formados desiludidos na fila do desemprego, todos estavam nas ruas e nas praças, com seu grito de ira justa, e de esperança que os faça sobreviver.

O povo – como nunca antes – que se auto convocou, saiu para as ruas sem patrão e sem partido, em legítima defesa do seu hoje e do seu amanhã; avisando a quem condena e a quem prestigia. Mostrou também que a sua aparente leniência não significa omissão. É a sociedade acompanhando a roda da História, fato por fato, sem precipitação mas sem desinteresse.

Disse, sem precisar dizer, aos responsáveis irresponsáveis: “quem avisa, amigo é”. E disse mais: “ouçam nosso grito”. Leiam nossas mensagens (como no discurso Shakesperiano de Marco Antonio, ao lado do corpo do Cesar assassinado, chamando a atenção dos senadores para o que poderia ocorrer: “EMPRESTEM-ME SEUS OUVIDOS”).

O povo, pela sentença irretratável da passeata, já condenara os que deviam ser condenados. E mostrou que quer um Brasil novo. Limpo. Como Kennedy, no histórico discurso no Bundestag em Berlim, a caminhada firme lembrou que ao povo não se engana para sempre. As ruas falaram. Não as desrespeitem para que o povo não necessite, de novo, lotar estradas e caminhos, e mobilizar-se em nova caminhada que não se pode saber como será e para onde nos levará.

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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