Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 7 de setembro de 2018
Venezuelanas grávidas estão deixando seu país devido à falta de cuidados pré-natais, remédios e fraldas e cruzando a fronteira com o Brasil para ter o bebê. A estimativa é de que três bebês venezuelanos nasçam no estado de Roraima a cada dia.
“Meu bebê teria morrido se eu tivesse ficado. Não havia comida, remédios ou médicos”, afirmou Maria Teresa Lopez enquanto alimentava a filha Fabiola, nascida em uma maternidade em Boa Vista, Roraima.
Maria Tereza, de 20 anos, pegou carona por 800 km de sua casa no delta do rio Orinoco até a fronteira com o Brasil, há cinco meses. Ela é uma dos centenas de milhares de venezuelanos que estão fugindo da crise econômica, política e humanitária no país.
O fluxo de venezuelanos sobrecarregou os serviços públicos em Roraima, levando a um aumento do crime, da prostituição, de doenças e de incidentes de xenofobia.
“Chegamos a um limite. Há filas nos hospitais e não temos equipamentos para atender tanta gente que precisa de cuidados médicos”, disse a prefeita de Boa Vista, Teresa Surita. Os cerca de 3.000 venezuelanos sem teto nas ruas da cidade causaram um surto de sarampo, segundo ela.
Os nascimentos de bebês venezuelanos na maternidade de Boa Vista aumentou para 566 no ano passado e 571 apenas na primeira metade de 2018, contra um total de 288 em 2016, quando a chegada de venezuelanos começou a crescer, afirmou a secretaria de Saúde de Roraima. Não houve nascimentos em 2015.
A coordenadora de segurança da saúde de Roraima Daniela Souza afirmou que o Estado tem apenas uma maternidade, que está atendendo no limite de sua capacidade. Os pacientes estão dormindo em macas nos corredores; seringas, luvas e outros suprimentos estão acabando, disse ela.
“Há 800 pessoas cruzando a fronteira todos os dias, e muitas mulheres e crianças precisam de atendimento médico”, disse.
Segundo ela, o número de venezuelanos atendidos pelos centros médicos do Estado cresceu de 700 em 2014 para 50 mil em 2017 e 45 mil apenas nos três primeiros meses deste ano.
A governadora de Roraima, Suely Campos, pediu que o Supremo Tribunal Federal feche temporariamente a fronteira, dizendo que o Estado não consegue lidar com o fluxo migratório. O Planalto, porém, descarta a medida.
Já Teresa Surita pede que o governo federal acelere o programa que pretende transferir venezuelanos da região para outras partes do país, além de instituir a vacinação obrigatória na fronteira.
Carmen Jimenez, de 33, que chegou de Ciudad Bolívar com oito meses de gravidez e deu à luz em Boa Vista, disse estar surpreendida com a quantidade de mães venezuelanas ali.
“Não vou voltar para a Venezuela até que haja comida e remédio e que as ruas estejam seguras novamente”, disse ela, segurando Amalia, de quatro dias de vida.
Maria Tereza disse ter sido bem recebida e que seu marido tem feito bicos de pintura e jardinagem. Ela, que é indígena da etnia Warao, do delta do Orinoco, diz que voltaria a seu país apenas para buscar sua filha mais velha, que ficou com a avó por ser muito pequena para a longa viagem até o Brasil.
“Não há nada para nós lá. Não fiz um ultrassom até que cheguei no Brasil, e foi gratuito. Quero ficar.”
Os comentários estão desativados.