Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 13 de abril de 2018
Ele não tinha perfis em redes sociais, não aparecia em fotografias nas postagens da família e nem falava muito de seu país, a Austrália. Para amigos e alunos das aulas de inglês, ele cobrava pouco e vivia sem luxo, e as atitudes eram típicas de um homem idoso, nascido antes da era digital e que prezava a discrição muito mais do que as selfies. Mas Daniel Marcos Philips, morador de Copacabana, de 68 anos, não era nada disso, nem mesmo tinha este nome ou idade. Ele é, na verdade, Christopher John Gott, de 63 anos, condenado por pedofilia e foragido no Brasil.
A notícia de que o estrangeiro, em coma desde que foi atropelado em 18 janeiro na praia de Copacabana — junto a outras 17 pessoas, uma delas um bebê de 8 meses que morreu — era, na verdade, um criminoso, surpreendeu a todos que o conheciam. O pior: em sua estada no País, onde está há cerca de 20 anos, Christopher teria adotado, informalmente, duas crianças. Um deles, Daniel, já um rapaz, descreveu ontem, por telefone, o choque que foi descobrir a verdadeira identidade do homem que conhecia como pai: “É uma situação muito nova”.
Na quinta-feira (12) ele foi à polícia, onde deu mais detalhes sobre o mistério que envolve a história de Christopher. Antes, ele já tinha dito que o pai contava à família brasileira que havia saído da Austrália para jamais retornar porque fora ameaçado no país, após testemunhar um crime. Não havia motivos para questionar o versão do estrangeiro, que, depois de tantos anos na cidade, já tinha adotado todos os clichês do estilo carioca de ser: era considerado boa-praça, afável e incapaz de ficar muito tempo longe da praia. No dia do atropelamento, ele havia saído para beber num quiosque à beira-mar.
Os alunos dele no Rio ainda processam a informação de que ele foi condenado por abuso de menores em sua terra natal. “O Daniel que conheci era uma pessoa respeitosa e que sempre procurava ajudar aos necessitados. Ele ajudava muita gente, adotou dois meninos que o tinham como herói”, diz um dos ex-alunos.
O australiano cobrava R$ 50 por cada hora de aula de inglês, preço considerado “camarada”, muito abaixo do praticado no mercado. O dinheiro, segundo uma ex-aluna, era para ajudar a pagar o aluguel do apartamento onde ele vivia em Copacabana. Segundo o jornal “The Australian”, Christopher se “aposentara” na cidade, após passar 20 anos dando aulas em uma escola internacional no Rio, com nome falso. Não é mencionado o nome do colégio.
A vida pregressa dele também é contada pelo jornal australiano. A família de Christopher cortou contato com ele após sua prisão em 1994. Na época, ele dava aulas em Darwin, para onde se mudou em 1992, após lecionar, nos anos 1980, numa escola secundária em Melbourne.
Pelas 17 acusações de pedofilia, ele foi sentenciado a seis anos de prisão. A pena, no entanto, foi reduzida para quatro anos — dois de prisão fechada e dois de condicional. Ao obter o benefício, em 1996, Christopher, que estava ainda em Darwin, disse às autoridades que iria pegar um ônibus para visitar os pais em Melbourne. Mas nunca chegou. Saltou em Adelaide e sumiu.
Na época do atropelamento, houve uma grande comoção. Christopher, então conhecido como Daniel, foi internado e, até hoje, encontra-se em estado vegetativo. Estudantes e amigos dos filhos dele pediram doações de sangue, ajuda para transferi-lo para um hospital privado e orações para a rápida recuperação do “gringo australiano”, como Christopher se chamava.
Um outro aluno que diz ter recebido uma mensagem de um australiano, logo após o acidente, que se identificou como filho de Christopher. Ele localizou o carioca pelas redes sociais e queria notícias do pai.
“Achei estranho e nem dei muita conversa. Sugeri que procurasse o filho dele, que foi adotado no Rio”, lembra o rapaz. Ex-alunos e pessoas que conheceram Christopher não identificaram quem seria a segunda criança adotada por ele e qual seria a idade dela hoje.
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