Sábado, 03 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 21 de novembro de 2023
A queda da taxa Selic, que começou em agosto, começa a se transmitir para o mercado de crédito a pessoas físicas. Mas, como esperado, esse movimento ocorre de forma ainda lenta, em meio a preocupações dos bancos com o emprego e a renda dos tomadores de empréstimos
No crédito às famílias, o que tem ganhado maior tração são os financiamentos para a aquisição de veículos. Linhas rotativas, como cartão de crédito e cheque especial, ainda estão estagnadas.
Na semana passada, o Banco Central divulgou, pela primeira vez, dados completos de sua Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito. Agora, dá para ter uma leitura mais detalhada sobre o apetite e as principais motivações dos bancos para oferecer crédito, e dos clientes para tomá-lo, nas principais linhas.
A pesquisa fez um raio-X de como os bancos tinham sentido o mercado de crédito no terceiro trimestre e, mais importante, qual era a expectativa para o último trimestre do ano, que está em curso.
Uma das conclusões é que, em meio aos sinais de desaceleração da economia neste segundo semestre, o crédito a pessoas físicas vai se recuperando, mas de forma lenta, sem se estabelecer como um grande motor de sustentação da demanda agregada.
A pesquisa de crédito do Banco Central aponta um índice de 0,06 para o apetite para a oferta de crédito ao consumo pelos bancos no quarto trimestre. É um número positivo, mas quase zero. Esse indicador pode variar de -2, que representa a máxima contração de crédito, e +2, que significa a máxima expansão.
O fato de o indicador de oferta de crédito ao consumo ter entrado no terreno positivo não deixa de ser uma boa notícia. Ele oscilou em números negativos durante cinco trimestres seguidos, com o dado mais baixo de -0,44 no segundo trimestre deste ano.
Também não era de se esperar dados muito positivos desse indicador, a julgar pelo histórico mais recente. A máxima da série estatística do BC, desde o início do governo Temer, em 2016, ocorreu no quarto trimestre de 2020. Foi também 0,44, mas com o sinal positivo.
Provavelmente, foi um reflexo das medidas adotadas pelo governo para expandir o crédito, em resposta à pandemia, além da agressiva baixa da taxa Selic pelo Banco Central. Já no começo de 2021 o BC embarcou num processo de aperto monetário, reduzindo o apetite dos bancos para emprestar. Depois de atingir uma máxima de 13,75% ao ano, a taxa Selic está atualmente em 12,25% ao ano.
Há diferenças, porém, no apetite dos bancos em ofertar crédito nas diferentes linhas. Em veículos, há uma expansão mais forte, com um índice positivo de 0,2. Já em cartão de crédito e cheque especial, o indicador está em zero. No fim de 2020 e 2021, esses indicadores oscilavam entre 0,2 e 0,3 para essas linhas rotativas.
Por que os bancos estão ainda reticentes em ofertar crédito a pessoas físicas? Aparentemente, tem a ver com uma certa prudência com os riscos de perda. Os bancos atribuem uma nota de 8,3 no nível de importância para o emprego, 8,4 para a renda e 7,1 para a inadimplência, todos numa escala de 0 a 10.
Os bancos estão pessimistas sobre esses quesitos, na hora de ofertar crédito. O índice está em -0,33 para emprego, -0,5 para renda e -0,5 para inadimplência, numa escala que vai de -2 até +2.
O problema não é de falta de demanda das famílias pro crédito. Na pesquisa, os bancos avaliam a demanda em +0,44. Um fator que ajuda a demanda é justamente a queda nas taxas de juros. Os bancos dizem que o custo dos empréstimos para o tomador final tem um peso de 7,7, na escala de 0 a 10. Atualmente, o juro, após a redução da Selic, é um fator positivo para a demanda: seu índice é 0,39, na escala que vai de -2 a +2.
A conclusão é que a baixa da Selic é importante para determinar a expansão do crédito de consumo, mas preocupações com as condições mais gerais da economia, como emprego e renda, ainda estão levando a uma certa prudência dos bancos. As informações são do jornal Valor Econômico.
Os comentários estão desativados.