Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 11 de julho de 2021
Uma geladeira inteligente, que consegue identificar que um produto está acabando, poderia, de forma autônoma, comprar este item on-line e pagar virtualmente. No supermercado, tudo o que um cliente colocar no carrinho seria cobrado instantaneamente, sem que fosse necessário passar em um caixa. Comprar um sorvete no meio de um passeio em Berlim, com preço em euros, poderia ser feito com reais, como aconteceria no Rio.
Essas são algumas experiências que prometem virar realidade num futuro próximo com o desenvolvimento do real digital, uma versão virtual da moeda brasileira que o Banco Central desenvolve desde o segundo semestre do ano passado. O projeto ainda está no início, mas é pauta de reuniões semanais que envolvem o presidente do BC, Roberto Campos Neto, diretores e técnicos. O tema é encarado por eles como mais um passo na agenda de modernização do sistema financeiro, uma das prioridades da instituição nos últimos anos.
Atualmente, os brasileiros já contam com uma série de recursos digitais para facilitar a movimentação de dinheiro, como o Pix. A diferença entre o sistema de transferências instantâneas e a moeda digital é que, neste último caso, será possível movimentar reais que não existem fisicamente.
Para os técnicos do BC, será uma evolução do Pix no sentido de facilitar e ampliar o acesso a transações financeiras mais ágeis e de menor custo.
O esforço do BC faz parte de uma corrida tecnológica que envolve bancos centrais de vários países para desenvolver moedas soberanas digitais (Central Bank Digital Currencies, CBDCs), usando tecnologia parecida com a que originou criptomoedas como o bitcoin. Com a diferença de que serão emitidas pela autoridade monetária dos países.
Como ponto de partida, o BC brasileiro já estabeleceu como diretriz que o real digital será uma extensão da moeda física e que só existirá virtualmente.
O brasileiro poderá escolher lidar com seu dinheiro de forma convencional ou digital. Uma diferença fundamental entre o real tradicional na conta corrente e o digital é a impossibilidade de sacar a moeda virtual. Essa versão não terá um correspondente em papel-moeda. Servirá apenas para transações eletrônicas, sempre rastreadas para impedir fraudes e falsificações.
Mais de 60 países
Como o real digital será emitido pelo próprio BC, a divisa carregará o risco soberano do Brasil. A custódia da moeda ficaria com agentes financeiros, mas ela seria garantida pelo BC.
O real convencional que atualmente é depositado por um cliente numa conta corrente é utilizado pelos bancos como base para suas operações, como fornecer crédito para outra pessoa ou empresa. Por isso, o risco relacionado ao saldo de um correntista também está ligado à possibilidade de seu banco quebrar. No caso do real digital, o risco será o do país.
O real digital será baseado em uma tecnologia parecida com o blockchain, sistema que permite rastrear o envio e recebimento de informação pela internet.
“É uma corrida global. Isso é o bitcoin do país. O primeiro que conseguir vai internacionalizar a sua moeda, estará com uma vantagem competitiva”
É a mesma tecnologia que possibilitou o bitcoin, representante mais conhecido das criptomoedas. Mas o real digital será diferente de uma criptomoeda. Ele será uma divisa com lastro na própria moeda — ou seja, o real — o que o bitcoin não tem.
Outra diferença é que o real digital deverá ter o saldo sempre armazenado em uma instituição financeira, e as transações ocorrerão por intermédio do sistema bancário. Hoje, criptomoedas são armazenadas em carteiras virtuais (wallets) e as operações entre usuários e corretoras não têm supervisão do BC.
Fernando Ulrich, professor da PUC-RS, líder da área de Educação da Liberta Investimentos e um dos maiores especialistas no tema, explica que o bitcoin e demais criptomoedas são regulados no Brasil e na maioria dos países, mas como ativos financeiros, um tipo de investimento, e não como moedas: “Criptomoedas não são moedas legais, à exceção de El Salvador, que tem o bitcoin como moeda oficial. Poucas pessoas usam bitcoin como um meio de troca.”
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