A decisão do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do Rio Grande do Sul (Fundesa) de aportar US$ 300 mil para a criação do Banco Regional de Antígenos de Febre Aftosa (Banvaco) representa um novo passo na estratégia de proteção sanitária da pecuária brasileira. Em um cenário no qual o país avança para consolidar o status de livre da doença sem vacinação, a iniciativa busca garantir capacidade de resposta rápida diante de eventuais emergências e preservar uma das principais conquistas da produção animal nacional.
A aprovação ocorreu em Assembleia Extraordinária do Conselho Deliberativo do Fundesa, atendendo a uma solicitação do Ministério da Agricultura e Pecuária e do Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária (Panaftosa). Os recursos serão destinados por meio da conta Fundesa Bovídeos, criada a partir da nova modalidade de contribuição ao fundo. Nesta quarta-feira, o presidente do Conselho Técnico Operacional da Pecuária de Corte do Fundesa, Pedro Píffero, participa, em Brasília, da reunião que formalizará a adesão brasileira ao projeto.
Embora seja um tema técnico, a medida tem impacto direto sobre uma das cadeias econômicas mais importantes do país. A sanidade animal é um dos principais critérios observados pelos mercados compradores de carne bovina e exerce influência decisiva sobre a manutenção e a abertura de mercados internacionais. Ao longo das últimas décadas, o Brasil investiu pesadamente em vigilância, controle e erradicação da febre aftosa, conquistando reconhecimento sanitário que ampliou sua competitividade global.
O avanço trouxe benefícios econômicos, mas também novos desafios. Com a retirada gradual da vacinação obrigatória, tornou-se necessário estruturar mecanismos capazes de assegurar respostas rápidas caso ocorra a reintrodução do vírus. É justamente nesse contexto que surge o Banvaco.
O banco regional funcionará como uma reserva estratégica de antígenos virais mantidos sob rigorosos protocolos de segurança. Em uma eventual emergência sanitária, esses insumos poderão ser rapidamente formulados e transformados em vacinas de alta potência, permitindo ações de contenção em prazo estimado entre cinco e sete dias. A rapidez é considerada fundamental para impedir a disseminação da doença e minimizar impactos sobre a produção e o comércio internacional.
Especialistas em defesa sanitária afirmam que a eficiência no combate a uma enfermidade depende, sobretudo, da capacidade de reação disponível nos primeiros momentos após a identificação do problema. Quanto menor o tempo de resposta, maiores as chances de conter focos localizados e evitar consequências econômicas mais amplas.
Durante apresentação aos conselhos técnicos do Fundesa, o gerente do Banvaco e médico-veterinário do Panaftosa, Guilherme Marques, comparou emergências sanitárias a situações de guerra, destacando que a preparação precisa ocorrer antes do surgimento da crise. A avaliação resume a filosofia que orienta o projeto: investir em prevenção para evitar prejuízos muito maiores no futuro.
O banco ficará instalado no laboratório Biogénesis Bagó, na Argentina, unidade que já abriga reservas estratégicas utilizadas por países como Estados Unidos e Canadá. Ao aporte gaúcho será somada uma contribuição equivalente do fundo pecuário de Mato Grosso, totalizando US$ 600 mil. O valor permitirá manter, durante dez anos, antígenos suficientes para a produção de até um milhão de doses de vacina de emergência.
Além do Brasil, o Banvaco reunirá Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai em uma estrutura regional de cooperação sanitária. O modelo possibilita o compartilhamento de custos, conhecimento técnico e capacidade de resposta, fortalecendo a proteção de países cuja economia possui forte ligação com a atividade pecuária.
Embora a febre aftosa esteja controlada na maior parte da América do Sul, o risco é monitorado permanentemente pelas autoridades sanitárias. A circulação internacional de pessoas, mercadorias e produtos agropecuários exige vigilância constante em um mercado cada vez mais rigoroso em relação à segurança dos alimentos.
Por isso, a adesão ao banco regional é vista como uma evolução natural do sistema brasileiro de defesa animal. Se o desafio das últimas décadas foi erradicar a doença, a missão agora é preservar um patrimônio sanitário construído com anos de investimentos públicos e privados.
Mais do que financiar a manutenção de antígenos em laboratório, o aporte aprovado pelo Fundesa ajuda a proteger uma cadeia produtiva responsável por gerar emprego, renda, divisas e desenvolvimento em milhares de municípios brasileiros. Em um ambiente internacional cada vez mais competitivo, a capacidade de responder rapidamente a ameaças sanitárias tornou-se um ativo estratégico. O Banvaco nasce justamente para garantir que a pecuária brasileira continue preparada para enfrentar riscos, preservar mercados e sustentar sua credibilidade perante o mundo.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
