Segunda-feira, 13 de abril de 2026
Por Tatiane Dias Scotta | 13 de abril de 2026
Infelizmente, com a banalização do sexo, o efeito do beijo e o seu lado mais lúdico e romântico parecem ter se apagado com o tempo
Foto: DivulgaçãoEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Sou de um tempo em que o beijo na boca era um dos momentos mais importantes na vida de um jovem adolescente. Do tempo em que o beijo não só era prazeroso, mas causava arrepios… e até uma certa tontura. Era mais romântico, mais envolvente.
Em que momento o beijo se tornou banal? Um gesto íntimo entre homem e mulher, cientificamente comprovado como algo que desperta hormônios, cria vínculos e acende paixões.
E quando eu falo isso, não falo apenas como profissional, mas como mulher que conhece esse sentimento e sabe que ele também afeta os homens.
Infelizmente, com a banalização do sexo, o efeito do beijo e o seu lado mais lúdico e romântico parecem ter se apagado com o tempo.
E isso, inevitavelmente, tem afetado os relacionamentos. No mês passado, durante uma palestra para um grupo de mulheres, um tema tomou conta da conversa de forma quase unânime: o beijo na boca.
Entre risos tímidos e desabafos sinceros, muitas relataram uma insatisfação silenciosa em seus relacionamentos: a ausência de beijos no dia a dia.
Não é falta de amor. Não, necessariamente, a falta de convivência. Mas a falta daquele gesto simples, íntimo e poderoso que, aos poucos, vai desaparecendo da rotina de muitos casais. E aqui está um ponto que merece atenção: o beijo na boca não é um detalhe.
Ele é um termômetro emocional e, ao mesmo tempo, um combustível essencial para a saúde do relacionamento. Do ponto de vista da psicologia, o beijo ativa áreas do cérebro ligadas ao prazer, à conexão e à segurança emocional.
Quando um casal se beija, há liberação de substâncias como a oxitocina, conhecida como o “hormônio do amor”, e a dopamina, associada ao prazer e à motivação.
Além disso, o toque dos lábios estimula terminações nervosas que enviam sinais diretos de bem-estar e ajudam a reduzir o estresse. Ou seja: beijar não é apenas romântico. É um regulador emocional.
É um recurso natural que diminui a ansiedade, fortalece o vínculo e aumenta a sensação de pertencimento entre o casal. Mas o que acontece com muitos relacionamentos ao longo do tempo? O beijo vai sendo substituído por tarefas, responsabilidades, cansaço e distrações.
A rotina entra sem pedir licença… e, quando se percebe, o casal passa a se relacionar mais como parceiros logísticos do que como amantes.
E, nesse processo silencioso, o beijo vai ficando restrito aos momentos de intimidade, quando ainda existe, muitas vezes de forma mecânica. O problema é que, sem o beijo no cotidiano, o casal perde justamente a conexão que sustenta o desejo.
Sim… o beijo acende o “fogo no parquinho”. E não é força de expressão.
Beijos presentes, demorados e intencionais, como a conhecida “regra dos 6 segundos”, do psicólogo John Gottman, têm impacto direto no aumento do desejo.
Eles despertam o corpo, reativam a memória afetiva e criam um espaço de reconexão que vai muito além do físico.
O cérebro entende aquele gesto como interesse. E o corpo responde. Porque o desejo não nasce do nada. Ele é cultivado.
É alimentado nos pequenos gestos, no toque, no olhar e, principalmente, no beijo. Casais que mantêm o hábito de se beijar ao longo do dia constroem uma base emocional mais sólida.
Eles se comunicam sem palavras, aliviam tensões e mantêm viva uma chama que não depende apenas de momentos específicos.
O beijo diário diz: “eu ainda te escolho”, “eu ainda te desejo”. É uma linguagem silenciosa, mas extremamente potente. E fica aqui uma pergunta direta:
Quando foi a última vez que você beijou seu parceiro ou parceira de verdade com aquela pegada que mistura o lado mais instintivo com o romantismo?
Sem pressa. Sem distração. Sem automatismo. Relacionamentos não esfriam de repente. Eles vão perdendo temperatura na ausência dos pequenos gestos.
E o beijo é um dos primeiros a desaparecer. Se você quer mais conexão, mais leveza e mais desejo na sua relação, comece por algo simples: Volte a beijar. Mas não de qualquer jeito. Beije com presença. Com intenção. Com entrega. E permita que o fogo reacenda… de dentro para fora.
Porque, no fim das contas, um relacionamento saudável não se sustenta apenas no amor declarado, mas no amor demonstrado, vivido e sentido no cotidiano.
E, muitas vezes, tudo pode começar com um beijo.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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