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Ali Klemt Belas e poderosas, sim senhores

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(foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Por que a sociedade julga tanto a mulher vaidosa?

Essa é uma pergunta que me intriga…Afinal, ela revela um dos maiores contrassensos da sociedade contemporânea.

A beleza feminina nunca foi algo aleatório ou fútil. Ao longo da história humana, ela sempre esteve ligada a valores profundamente concretos: saúde, vitalidade, harmonia e capacidade reprodutiva. A psicologia evolutiva é evidente nesse ponto. Estudos clássicos demonstram que certos traços físicos associados à beleza feminina funcionaram, ao longo de milhares de anos, como sinais biológicos de fertilidade e saúde, diretamente ligados à seleção natural e à procriação (Buss, 1989; Langlois et al., 2000). Isso explica, aliás, a razão pela qual é muito mais doloroso envelhecer quando se é mulher.

Ou seja, antes de ser discurso cultural, a beleza é, antes de mais nada, sobre biologia.

Pensa comigo. Mesmo diante de tentativas sociais de se “desapegar” da aparência, é quase intuitivo estimular as meninas, direta ou indiretamente, a serem bonitas. O elogio, o vestido, o cuidado com o cabelo, o olhar social que valida… tudo isso aparece desde a infância. O olhar amoroso sempre deseja o melhor para os seus filhos. A aparência física, idem. Por que? Porque facilita, naturalmente, a vida em sociedade. Pesquisas sobre desenvolvimento e socialização mostram que meninas recebem estímulos estéticos muito mais intensos do que meninos, independentemente da ideologia dos pais (Eccles, 1994; Hines, 2010). Parece cruel, mas é apenas a natureza sendo, enfim, natural.

Até aí, tudo bem. Desde que o mundo é mundo, a beleza feminina foi cobiçada, invejada, admirada. Cantada em versos, exaltada em poemas. O que aconteceu que a beleza passou a ser quase objeto de preconceito? Pior! Passou a ser um dificultador, em um mundo onde as mulheres quiseram ingressar: o mercado de trabalho e de tomadas de decisões negociais. Aí, o jogo dificultou. Porque beleza pode ser maravilhoso (e nós, mulheres femininas, sabemos o quanto gostamos de nos sentir belas), mas não basta para fechar contratos, negociar, resolver questões complexas, atingir metas e concluir pesquisas científicas. Para isso, é preciso cérebro.

A questão é que ambos podem coexistir – e coexistem, em muitos casos. O que não entendo é por que, se a beleza sempre foi incentivada, uma mulher bonita precisa provar tanto mais que é inteligente, competente e eficiente? Por que a aparência, quando vem acompanhada de ambição, liderança e voz, passa a gerar desconfiança?

A resposta não é simples, porém, é bem documentada. Estudos em psicologia social mostram que mulheres consideradas atraentes sofrem o chamado beauty penalty em contextos de poder: são percebidas como menos competentes, menos racionais e menos adequadas para cargos de liderança do que mulheres menos atraentes ou do que homens em geral (Heilman, 2001; Johnson et al., 2010). A minha teoria? Já, já explico ali adiante. Em síntese, contudo, já podemos concluir: a beleza ajuda em alguns contextos sociais, mas se transforma em obstáculo quando a mulher ousa ocupar espaços de autoridade.

É neste-exato-ponto que vem a minha grande indignação. Uma mulher que trabalha, constrói carreira, cuida da casa, muitas vezes é mãe e ainda se cuida, faz tudo o que um homem faz — com um detalhe a mais: ela administra o próprio corpo, a própria imagem e a própria energia sob julgamento constante. E, ainda assim, precisa provar que a vaidade não anula o cérebro. Sim, eu me reconheço nesse papel, assim como a várias, muitas, inúmeras grandes, lindas e competentíssimas mulheres que me circundam. E é extremamente cansativo justificar que, sim, você cuida de si, dos seus cabelos, do seu corpo, da sua pele…e segue sendo brilhante!

Eu diria mais: considerando que a beleza não é apenas estética, o estímulo individual ao próprio autocuidado engrandece o ser humano. Fortalece a autoestima. Aumenta a autoconfiança. O resultado é autoimagem. E a forma como uma pessoa se percebe impacta diretamente sua segurança emocional, sua assertividade e sua presença no mundo. Pesquisas sobre autoestima mostram que a coerência entre identidade interna e autoimagem, aliás, está diretamente associada ao bem-estar psicológico e à realização pessoal (Cash, 2004; Orth & Robins, 2014).

Cuidar de si não é futilidade. É fortalecer a estrutura emocional.

Nesse ponto, a reflexão proposta no livro Capital Erótico é fundamental. “Capital erótico? Agora a Ali está louca!”. Vou explicar.

O conceito de capital erótico foi desenvolvido pela socióloga Catherine Hakim para descrever um tipo específico de recurso social que, assim como o capital econômico, cultural ou social, gera vantagens concretas na vida pessoal, profissional e relacional. De forma simples: capital erótico é o conjunto de atributos ligados à aparência, à presença e à forma como uma pessoa se coloca no mundo, capazes de produzir influência, reconhecimento e poder simbólico. Tais atributos, portanto, funcionam como capital simbólico real, capaz de gerar influência e mobilidade social, sobretudo para mulheres. Vou repetir: as mulheres têm especial poder quando se trata desse capital específico. E aí… fomos boicotadas.

O que mudou ao longo do tempo não foi o valor da beleza feminina, mas o discurso sobre ela. Transformá-la em “futilidade” foi (e ainda é) uma maneira sofisticada de retirar da mulher uma de suas ferramentas históricas de poder simbólico. Quando a mulher aprende que cuidar da própria imagem é algo menor, aprende também a se encolher e, ao fim e ao cabo, a pedir desculpas por ocupar espaço.

É claro que essa discussão precisa ser atravessada pela realidade concreta da maioria das mulheres. Vivemos, sim, uma tripla jornada: trabalho, casa, filhos, responsabilidades emocionais. Muitas vezes falta tempo, dinheiro e rede de apoio. Essa é uma realidade incontornável. Todavia, é justamente por isso que é fundamental fazer a distinção correta: beleza não é se encaixar em padrões externos inalcançáveis. Beleza nasce do autocuidado possível, da autoestima construída, da autoconfiança cultivada dentro da vida real que se vive. Não é sobre agradar o olhar alheio: é sobre coerência interna.

Ou seja, o grande contrassenso é que a mesma sociedade que exige que a mulher seja forte, produtiva, confiante e bem-sucedida é a que tenta diminuí-la quando ela escolhe ser vaidosa. Sabe por que? Porque uma mulher bem resolvida tem um poder que muda o mundo. E talvez…talvez seja exatamente isso que uma sociedade escorada, há milênios, no poder masculino, não quer — e que talvez, agora, com ela não conseguisse lidar.

Instagram: @ali.klemt

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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