Sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 15 de abril de 2016
Formada em inglês pela Universidade de Boston (EUA), a executiva-chefe do Instituto Davis Geena sobre Gênero em Mídia, Madeline Di Nonno, descobriu cedo a paixão pelo entretenimento e tem mais de 30 anos de experiência na indústria de entretenimento e mídia digital. Ela conta que procurava modelos de mulheres bem-sucedidas, mas não as encontrava na mídia. “Buscava em obituários histórias de mulheres inspiradoras. Hoje, uni as duas coisas.” Confira a seguir trechos de uma entrevista feita com a americana.
Conte algo que não sei.
Madeline Di Nonno – Quando uma mulher está no comando de uma produção cinematográfica, seja como roteirista ou como diretora, há um aumento de cerca de 7,5% de mulheres trabalhando por trás das câmeras. Por isso, se metade da academia de cinema fosse formada por mulheres, nós não teríamos o tipo de Oscar que temos visto ultimamente. E não apenas teríamos mais mulheres, como também mais diversidade étnica.
Seu trabalho, porém, é focado na programação infantil. Por que isso?
Madeline – As poucas personagens femininas que existem na indústria de entretenimento, na maioria das vezes, não têm carreiras, são altamente sexualizadas. Normalmente, o único propósito delas é servir de romance ou apenas exibir sua beleza. Se elas crescem com esse tipo de visão irão reproduzir isso.
De que maneira a representação feminina na TV pode influenciar a percepção das crianças sobre a sua realidade?
Madeline – Meninas com 6 anos estão se autossexualizando. Elas passam a se enxergar através das lentes masculinas com as quais os programas infantis são produzidos. Nos EUA, crianças com menos de 8 anos estão vendo de sete a dez horas diárias de diferentes tipos de mídia. Mas elas não têm filtros – não têm habilidades críticas para assistir a um programa e se perguntar: “Eu não me reconheço aqui. Por quê?” Se os filmes mostrarem mulheres com carreiras, cientistas, engenheiras, astronautas ou jogadoras de beisebol, e se meninos e meninas crescerem vendo isso, será normal que, quando adultos, entrem em uma sala em que metade das pessoas seja de mulheres, ou em que uma CEO e os líderes também sejam mulheres, porque cresceram vendo isso.
A partir de qual idade devemos começar a ter esse tipo de preocupação?
Madeline – Quando muito novinhas, as crianças não entendem a diferença de gêneros e, até os 5 anos, elas não ligam para isso. É a partir dos 6 anos que se torna fundamental ajudá-las a adquirir habilidades críticas de pensamento.
E como fazer isso?
Madeline – É preciso assistir, na medida do possível, aos mesmos programas que seus filhos. Se for um filme de esportes que não tenha mulheres, introduza a ideia: poderia ter uma menina ali? Ela poderia praticar o esporte? E discuta com eles, para que aprendam a questionar.
Por que começar com a TV e o cinema?
Madeline – Porque só a mídia pode mudar da noite para o dia – porque é ficção. Enquanto outras categorias de negócio, a política, a academia, o Direito podem levar anos para alcançar igualdade de gêneros, a TV e o cinema podem mudar essa realidade com um piscar de olhos.
A história brasileira é marcada por uma cultura patriarcal e machista. Nossos filmes refletem essa realidade?
Madeline – Pelo contrário. O Brasil tem, na verdade, uma das mais altas taxas de presença feminina em suas produções cinematográficas – 37% –, quando comparado aos dez países com os cinemas de maior relevância mundial. Além disso, vocês têm uma das mais altas taxas de escritoras, 40%, e de produtoras, 47%. (AG)
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