Domingo, 25 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 13 de agosto de 2016
Psicólogo clínico, psicanalista e professor da Universidade de Coimbra (Portugal), o português Eduardo Sá, que lança no Brasil o livro “Brincar Faz Bem à Saúde”, diz que os pais de hoje confundem autoridade com autoritarismo. E explica na entrevista a seguir como isso ocorre.

Eduardo Sá. (Foto: Reprodução)
Como as nossas crianças estão sendo criadas e como o senhor acredita que deveriam ser?
Eduardo Sá – Somos as melhores famílias e os melhores pais que a Humanidade jamais “produziu”. Planejamos a parentalidade. Cuidamos dos nossos filhos com o coração e com a cabeça. E vamos mais vezes à escola em um ano escolar do que os nossos pais terão ido em quase todo o nosso percurso educativo. No entanto, todos estes cuidados não têm sido acompanhados com um exercício de autoridade sensato. A autoridade resulta da sabedoria, do sentido de justiça e da bondade. Logo, as crianças acolhem-na, sem grandes explicações, mas me parece que os pais de hoje foram educados em famílias, escolas e numa atmosfera social tão autoritárias que confundem autoridade e autoritarismo. E, em vez de usarem o “não!” com alma e convicção, transformam-se em “pais bonzinhos”, que exercem a autoridade com medo, como se um “não”, em vez de proteger, traumatizasse as crianças. Os pais também esquecem, por vezes, que a família é mais importante que a escola. E se a escola é um bem precioso, a família será a enciclopédia e a gramática da vida. Em outras palavras: os pais confiam à escola funções que têm de ser suas.
Todo pai e mãe quer acertar, acredito. Isso é bom?
Sá – Nim… Isto é: sim; e não. Mas eu explico. As mães reclamam para si um “sexto sentido”, que é uma forma de dizer aos filhos que elas os sentem. É verdade que todos os pais adivinham os filhos. E acertam milhares de vezes! Mas, em diversas circunstâncias, parecem querer muito ser perfeitos. Se já acertam tantas vezes, por que precisam ser perfeitos? Porque querem demonstrar a si próprios que são melhores, como pais, do que os pais que tiveram. Na verdade, pais humildes demonstram aos filhos, todos os dias, que os sábios não são aqueles que não erram; são, antes, aqueles que aproveitam todos os seus erros para aprender. Gosto que os pais não percam de vista que os bons pais precisam fazer uma asneira a cada oito horas. Os pais que mais me preocupam são os que querem tanto não errar que se tornam assustados e inseguros.
Qual é a responsabilidade familiar no aprendizado da primeira infância?
Sá – É total. As crianças esperam ser lidas pelos pais para que, depois, consigam ler o mundo à sua volta e dentro de si. O período que vai da segunda metade da gravidez aos 2 anos da criança é precioso e indispensável. É nesse período, pela coerência e pela constância com que as crianças são estimuladas, que se forma uma rede nervosa que faz com que a mãe e o pai sejam os grandes responsáveis pelo “software” que as crianças dispõem para toda a vida, e pela forma como são cuidadas, que as crianças desenvolvem recursos para que seu cérebro passe a ter um “pacemaker” que as torna mais tranquilas, bondosas e saudáveis. É nesse período que as crianças desenvolvem os mais de um bilhão de micro-organismos do seu intestino e, com isso, ganham um sistema imunitário e estabilizadores emocionais que as tornam mais robustas. E é nesse período que aprendem a amar, a aprender, a sentir, a tocar, a descobrir e a se espantar.
Como equilibrar a birra da criança e a autoridade dos pais?
Sá – As crianças que fazem birras têm alma, e seus pais devem ser considerados “produtos de qualidade”. É como se a criança dissesse que está tão segura da sabedoria e da bondade dos pais que não hesita em ser agressiva. A tarefa dos pais será fazer com a agressividade dos filhos a “quadratura de um círculo”: permitir-lhes que a manifestem, claro. Mas, de acordo com as regras que os pais entendam sensatas. E sem nunca os magoarem. Os pais não podem ignorar que a birra está acontecendo nem podem esperar que uma criança se canse de fazê-la: mais de 10 minutos de birra é proibido. (AG)
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