Quarta-feira, 15 de abril de 2026
Por Amilcar Macedo | 15 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O 19 de abril, Dia do Exército, costuma ser recordado a partir de seu marco histórico fundacional. A evocação da Batalha dos Guararapes, a memória da formação de uma identidade nacional ainda em gestação, o reconhecimento da contribuição decisiva da instituição para a consolidação do Estado brasileiro. Tudo isso é justo e necessário. Mas talvez seja igualmente importante, especialmente no tempo presente, voltar o olhar para um símbolo que sintetiza, com impressionante precisão, a missão contemporânea da Força Terrestre: o “braço forte, mão amiga”.
Escolher esse eixo simbólico, em vez de repetir a narrativa histórica já tantas vezes percorrida, não significa diminuir a importância do passado. Pelo contrário. É justamente porque a história é conhecida que se torna possível perceber sua permanência sob novas formas. O lema consagrado revela uma espécie de tradução moderna de valores antigos: disciplina, prontidão, coragem, mas também solidariedade, cuidado e presença institucional em momentos de fragilidade coletiva.
O “braço forte” remete à função clássica de defesa da Pátria, à capacidade de proteção da soberania e das instituições, ao compromisso com a estabilidade que permite à sociedade civil florescer em liberdade. Não se trata apenas de força física ou poder material. Trata-se de confiabilidade. Um braço forte é, antes de tudo, um braço que sustenta, que garante a continuidade das estruturas que organizam a vida comum. Sua força não se mede apenas na guerra, mas na dissuasão que evita conflitos, na vigilância que preserva a ordem democrática e na disposição permanente de servir ao interesse público.
Mas é a expressão “mão amiga” que talvez melhor dialogue com o imaginário contemporâneo. Nas últimas décadas, consolidou-se na percepção social a imagem do soldado que não apenas combate, mas também socorre. O militar que atravessa enchentes para resgatar famílias, que distribui água no semiárido, que instala hospitais de campanha, que leva assistência a regiões isoladas, que participa de missões de paz e ajuda humanitária. A mão que empunha instrumentos de defesa é a mesma que oferece apoio quando a sociedade enfrenta suas horas mais difíceis.
Há, nesse símbolo, uma dimensão silenciosa de legitimidade institucional. Em uma democracia, a força armada não se justifica por si mesma, mas pela finalidade a que serve. O poder que não protege perde sentido. O poder que não ampara perde legitimidade. O ideal de uma instituição simultaneamente firme e solidária expressa uma concepção de serviço público que transcende a lógica puramente estratégica e alcança uma dimensão ética.
Optar por essa abordagem simbólica, neste 19 de abril, é também reconhecer que as instituições se mantêm vivas quando conseguem dialogar com as necessidades do seu tempo. O Exército de hoje é chamado a desempenhar funções que vão muito além da defesa territorial tradicional. Atua em contextos de emergência climática, em operações de apoio à população civil, em missões internacionais que buscam estabilizar regiões afetadas por conflitos. O símbolo do “braço forte e mão amiga” não é apenas uma frase institucional: é uma síntese narrativa da forma como a sociedade passou a perceber o papel de seus soldados.
Há, ainda, um aspecto profundamente humano nesse lema. Ele sugere que a força não exclui a sensibilidade, e que a disciplina não elimina a empatia. Ao contrário do que por vezes se imagina, a firmeza institucional não precisa ser incompatível com a capacidade de acolher. Talvez resida aí uma das razões pelas quais esse símbolo permanece atual: ele traduz a ideia de que proteger também é cuidar.
Celebrar o Dia do Exército sob essa perspectiva simbólica permite perceber que certas instituições não se definem apenas por seus feitos passados, mas pela forma como continuam sendo percebidas no presente. O 19 de abril, mais do que um marco histórico, torna-se uma oportunidade de refletir sobre a confiança social depositada em homens e mulheres que assumem a responsabilidade de servir em circunstâncias frequentemente difíceis e silenciosas.
O “braço forte” assegura que a ordem não seja rompida. A “mão amiga” recorda que a ordem existe para proteger pessoas concretas, com suas fragilidades e esperanças. Entre a firmeza e a solidariedade, constrói-se um ideal de serviço que ajuda a explicar por que esse símbolo permanece tão expressivo.
Neste 19 de abril, talvez seja essa a homenagem mais adequada: reconhecer que a força que protege é a mesma que socorre, e que a presença institucional que garante estabilidade é também aquela que se manifesta quando a sociedade mais precisa de apoio. Porque há símbolos que não apenas representam uma instituição, mas revelam o modo como ela deseja ser lembrada. E poucos traduzem tão bem essa aspiração quanto a imagem do braço forte e da mão amiga.
Amilcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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