Sábado, 12 de Junho de 2021

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Saúde Brasil vive sob ameaça de uma “supercepa”, alertam especialistas

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Entre as pessoas infectadas, 1.074.998  (96% dos casos) já se recuperaram da doença. (Foto: Reprodução)

Desarticulação das políticas sanitárias, quarentenas que alcançaram pouca eficiência pela pressão do poder econômico, imunização nacional pulverizada e baixa cobertura relativa ao tamanho da população. Após quatro meses do início da vacinação contra a covid-19 no Brasil, em 17 de janeiro, técnicos fazem balanço e avaliam que o “jeito brasileiro” de responder à pandemia impõe agora a desconfortável posição de ter que lidar com um risco em perspectiva: o surgimento de uma supercepa.

Sanitaristas afirmam que é possível o aparecimento de uma mutação no Brasil que seja tão ou mais hostil que a indiana, graças à ausência de uma liderança clara para dar rumo às estratégias contra o novo coronavírus.

Não se pode afirmar determinantemente que vá ocorrer essa nova cepa, ponderam. De patógeno que vem apresentando o comportamento imprevisível do Sars-Cov-2, inclusive passando a matar mais jovens, pode-se esperar o pior — mesmo que sua agressividade se atenue. Mas o surgimento de supercepa não é impossível, admitem sanitaristas. E o Brasil vem apertando todos os  comandos para rumar nessa direção.

“Não temos como afirmar categoricamente que uma variante que resista a vacinas vá surgir no Brasil. Vírus mutam o tempo todo. Algumas dessas mutações podem nos ser favoráveis, outras não. Mas, em tese, a possibilidade existe e precisamos trabalhar com diferentes cenários de risco”, afirma José Gomes Temporão, médico sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-ministro da Saúde.

No campo das dúvidas criadas por uma pandemia descontrolada, mesmo os mais renomados técnicos não arriscam negar que a temida cepa da Índia chegou ao Brasil. “A falta de exigências para entrada de estrangeiros e de medidas preventivas nas fronteiras já pode ter aberto essa passagem”, diz Adriano Massuda, professor e pesquisador do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da FGV-EAESP.

A grande frustração do médico sanitarista e de colegas, no entanto, é que o Plano Nacional de Imunizações (PNI), reconhecido mundialmente desde sua criação, em 1973, vem sendo subaproveitado. Aliado a medidas orientadoras e ações coordenadas de distanciamento social não tomadas nacionalmente, o programa poderia ter sido instrumento para que o País tivesse alcançado posição de destaque na resposta à crise de saúde.

Para dar conta de cobrir grupos prioritários, cidades e Estados fazem adaptações. E some-se à escassez de imunizantes, problemas que podem surgir com o avanço dos estudos. Na semana passada, por exemplo, São Paulo remanejou vacinas CoronaVac e Pfizer para assegurar a proteção de grávidas e puérperas com comorbidades, já que a vacinação desse grupo com a da AstraZeneca foi suspensa.

A inconstância no cronograma também leva muitos ao desalento e até a negligenciar a segunda dose. Associada à falta de sincronia intercidades na execução do PNI, as paradas prejudicam a meta de alcançar imunidade coletiva, o que só deverá ocorrer em 2022. Para Temporão, se tudo tivesse sido feito como “manda o figurino”, 30% a 40% da população já poderia estar hoje vacinada com duas doses.

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